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Opinião24/08/2018 | 18h05Atualizada em 24/08/2018 | 18h05

Tríssia Ordovás Sartori: memorabilia e fantasia 

Tenho nostalgia dos brinquedos que sequer passaram pela minha infância e ainda me impressiono com aquelas bonecas com olhinhos que abrem e fecham

Tríssia Ordovás Sartori: memorabilia e fantasia  Fábio Panone Lopes/Especial
Foto: Fábio Panone Lopes / Especial
Trissia Ordovás Sartori

trissia.ordovas@pioneiro.com

Gosto de visitar mercados de pulgas, briques e brechós. Além dos objetos antigos em si, adoro fantasiar sobre as histórias que se escondem em cada peça. Tenho nostalgia dos brinquedos que sequer passaram pela minha infância e ainda me impressiono com aquelas bonecas com olhinhos que abrem e fecham conforme o movimento que fazemos com elas. Ou com os bichinhos cobertos por uma espécie de pelúcia colorida, que desbotam com o tempo. É impossível não pensar nas minhas próprias bonecas, nas brincadeiras infantis, nos carrinhos usados como patins ou nos Smurfs de plástico que viraram itens da minha coleção de adulta. Ou por que esses objetos distanciaram-se dos antigos donos, como chegaram até o lugar da venda.

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Minha mãe adora antiguidades, peças com histórias que nem sempre perpassam as dela – expressamente, ao menos. Recém voltei das férias e trouxe a ela xícaras de cafezinho produzidas na Iugoslávia e na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, achadas em mercados nos países do Báltico. Defuntas, portanto. 

São integrantes, como tantos outros objetos, de uma série de itens do cotidiano de famílias que precisaram, em algum momento, se desfazer da memorabilia e, adquiridos, ganham outro uso e outro olhar. Penso no ato de se desfazer das coisas, no desapego, na fluidez das energias que em outro instante estavam em algum recinto específico do planeta.

Caminho entre malas e baús, idênticos ao que meu avô imigrante trouxe com seus pertences, repousando ao lado de LPs japoneses e de capacetes de guerra. Medalhas de condecoração, uniformes militares, bustos de heróis controversos... Em um pequeno espaço, consigo fazer um passeio pelo lado mais singelo da casa – dos brinquedos –, passando pela solenidade dos objetos de cristal e porcelana e pela tristeza dos itens bélicos. Pelas xícaras sem pires, pelos carrinhos quebrados, pelas chaves sem fechaduras.

Pedro me explica que a caixinha bonita que encontramos é um Contador Geiger, aparelho bem antigo que mede a radiação. O proprietário do brique oferece-o por uma pechincha: apenas 8 euros, é pegar ou largar. Sem hesitação, declinamos a oferta. Percebo que, às vezes, há certo pudor em tomar objetos de outros. Prefiro ficar com aqueles em que posso fantasiar as histórias com final (quase) feliz.

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