Pedro Guerra: de quem é a culpa? - Cultura e Tendência - Pioneiro

Versão mobile

 

Opinião31/08/2018 | 14h09Atualizada em 31/08/2018 | 14h09

Pedro Guerra: de quem é a culpa?

 A vida exige que deixemos para trás aqueles fardos que não são nossos

Pedro Guerra: de quem é a culpa? Antonio Giacomin/Agencia RBS
Foto: Antonio Giacomin / Agencia RBS

Bati o carro. E olha que eu nem posso reclamar, já que saí ileso e o meu carro também. O acidente foi em um domingo à noite, quando eu freei para não atropelar um garoto que atravessou a rua no momento errado e o carro de trás encostou no meu. Para a minha sorte, nenhum arranhão _ em mim, no pedestre, no outro motorista e no meu carro. Mesmo tendo feito a coisa certa (liguei o pisca, dirigia na velocidade indicada, freei o menos brusco que pude), eu não pude deixar de pensar que a culpa foi toda minha.

Tenho esse problema há anos. Ele acaba saindo um pouco mais de controle quando eu nem mesmo estou envolvido em algum episódio e ainda assim acredito ser culpado por uma coisa ou outra. É quase como um mecanismo: está tudo bem, todos estão vivos e ninguém se feriu, mas eu insisto em pensar que fiz algo que poderia ter evitado. A culpa é sempre minha, e isso nem é coisa que os outros dizem, sou eu mesmo.

Já tentei investigar de onde vem o trauma. Talvez o meu passado relacionado ao bullying, quando a gente pensa que só sofre porque provoca alguma coisa, e que tudo que acontece é por pura culpa nossa; quem sabe os meus antigos relacionamentos naufragados que me fizeram acreditar que eu estava sempre errado; ou talvez seja só um problema de autoestima mesmo. Quer dizer, a culpa definitivamente não é minha.

Nem sempre tem que ser. E eu deveria saber disso! Ultimamente tenho tentado praticar o bota fora. Livrar-se de algumas culpas que nem mesmo são nossas é como perder alguns quilos. Não só é sentir-se mais leve, como

também é trazer um pouco de tranquilidade emocional para dentro da gente. Tenho tentado evitar aqueles debates intermináveis comigo mesmo sobre as coisas que deveria ou não deveria ter feito, onde sempre acabo carregando a mão na culpa. Agora, quando isso acontece, procuro ser prático: eu fiz porque queria, eu não fiz porque não estava com vontade. As consequências são raízes do aprendizado, e a culpa só cabe quando ferimos alguém _ nós ou os outros. Se todos saem ilesos, então, por que procurar por culpados?

Coldplay canta há anos que "se você nunca tentar, nunca vai saber", e como essa é uma das minhas bandas favoritas, acho que eu deveria levar a frase mais a sério. Chegou a hora da autocrítica, da autoavaliação. A vida exige que deixemos para trás aqueles fardos que não são nossos. Sendo assim, a partir de hoje estou me despindo de todas as culpas que não são verdadeiramente minhas. Ainda continuarei muito vestido, pois teve aquela vez em 2008 que eu acho que a culpa foi minha porque eu... Brincadeirinha.

 
 
 

Veja também

 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros