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Opinião 08/08/2018 | 14h43Atualizada em 08/08/2018 | 14h43

Ciro Fabres: Jacarandás

Espécies exóticas, por aqui, são vistas com suspeição. 

 A gente até ensaia pedir desculpas por falar de jacarandás em tempos tão conturbados. O jacarandá é uma espécie exótica, originária da Argentina. Espécies exóticas, por aqui, são vistas com suspeição. Que o digam os ligustros, uma espécie proscrita, sentenciada, que foi chamada anos atrás a contribuir com a arborização urbana de Caxias do Sul e hoje é acusado de tudo, de alergias a unha encravada. Por conta disso, é maltratado severamente nas ruas. Especialmente por causa dos fios da RGE, cometem-se barbaridades, e restam nas calçadas verdadeiros espantalhos verdes, capengas, galhos de um lado só. Quanta maldade com os ligustros. Dizem que é assim que se faz. 

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 Já os especialistas afirmam que há certa lógica ambiental nesta restrição às exóticas. Elas retirariam espaço de árvores nativas, isto é, naturais da região, o que causa alguma perplexidade para nós, leigos, dada a fartura de espaço para a proliferação de árvores. E também restaria outra questão, sobre até onde vai a delimitação dessas fronteiras ambientais. A partir daqui pode ligustro e jacarandá, a partir dali não pode, tem de ter passaporte. Nem vamos falar da transposição do conceito ambiental de espécies exóticas e nativas para a área antropológica, pois ficaria bastante chato, os exóticos retirando espaço dos nativos, e por aí vai. Espera-se que não se tente nenhuma relação entre o conceito ambiental e a perspectiva antropológica.  

Pois o jacarandá, apesar do exotismo, tornou-se patrimônio ambiental e urbano em Caxias. Já está integrado à identidade da cidade. Eles povoam especialmente ruas como a Bento Gonçalves, a Vinte de Setembro e algumas transversais e produzem um espetáculo magnífico ali por novembro, com a floração lilás ou azulada, que depois se derrama generosa em tapetes pelas calçadas. Uma bênção. A espécie que por aqui fincou raízes ganhou até um complemento simpático no nome, o jacarandá-mimoso, como o que um dia houve junto aos pavilhões do antigo DNER, na BR-116.  

Pois bem, ali na esquina da Ernesto Alves com Feijó, a mesma RGE que estraçalha os ligustros em nome da segurança da rede elétrica e dos moradores começou a fazer o mesmo com jacarandás. De quebra, a poda pegou ainda um pé de ipê. Quem vê do alto, quase da esquina da Ernesto com a Coronel Flores, fica perplexo com o que foi feito dos jacarandás. A preocupação da RGE se justifica, mas deve haver alguma solução técnica que não seja mutilar árvores. Enquanto o alvo da poda estranha para proteção da rede elétrica são os ligustros, passa sem repercussão. Agora, dá-se com jacarandás. Deus nos livre se a poda pegar valendo, Bento Gonçalves e Vinte de Setembro abaixo. 

A poda devastadora avança. Fica o alerta.

 
 
 

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