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Luto27/08/2018 | 17h15Atualizada em 27/08/2018 | 17h41

Aos 91 anos de idade, morre tradicionalista Paixão Côrtes

Cortes estava internado em hospital em Porto Alegre

Aos 91 anos de idade, morre tradicionalista Paixão Côrtes Arivaldo Chaves/Agencia RBS
Paixão Cortes Foto: Arivaldo Chaves / Agencia RBS
GaúchaZH
GaúchaZH

Homem que se transformou em símbolo do gauchismo, João Carlos D’Ávila Paixão Côrtes morreu nesta segunda-feira aos 91 anos. O folclorista, referência no estudo — e na própria formatação — da identidade do gaúcho, deixa como legado aquilo que só cabe na biografia dos mais importantes pesquisadores: sua imagem se confunde com a do objeto que ele dedicou a vida a desvendar.

Nascido em Santana do Livramento em 12 de julho de 1927, filho de pai agrônomo e mãe com dotes musicais, Paixão carregou as duas marcas na paleta: formou-se em Agronomia na UFRGS, exerceu a profissão e chegou a ser funcionário da Secretaria de Estado da Agricultura, mas nunca negou a vocação para o trabalho com a música e as danças características da região onde viveu. Em 1939, aos 12 anos, mudou-se com a família para Uruguaiana. Em meados da década de 1940, já estava instalado na Capital — onde havia estado pela primeira vez durante o centenário da Revolução Farroupilha, em 1935 — estudando em regime de internato no IPA.

A morte do pai foi decisiva para que se matriculasse no Colégio Júlio de Castilhos. Lá, estudando à noite, já tomado pela ideia de pesquisar e fortalecer os costumes do gaúcho frente à pressão de bens culturais externos como dos EUA. Firmou parceria com Barbosa Lessa, que descreveria como um “guri pequeno e magrinho”, e acabaria por se tornar seu principal parceiro na formatação do movimento tradicionalista. 

Ao longo das décadas de 1940 e 50, ao lado de Lessa e do Grupo dos Oito (turma de amigos do Julinho empenhados na pesquisa da tradição gaúcha), Paixão foi o mentor de uma série de solenidades que visavam a chamar a atenção para os símbolos socioculturais do gauchismo: a Chama Crioula (criada em 1947, como uma extensão da Chama da Semana da Pátria), o Desfile dos Cavalarianos, a Ronda Crioula (que, nos anos 1960, deu origem à Semana Farroupilha), e o primeiro Centro de Tradições Gaúchas, criado em 1948 com o nome de 35, por Côrtes, Lessa, Glauco Saraiva e Hélio José Moro.

Não foi à toa que, em 1954, quando da criação da escultura do Laçador, símbolo do gaúcho, o autor Antônio Caringi bateu à porta de Paixão Côrtes em busca de um modelo para a estátua que se encontra próximo ao Aeroporto Internacional Salgado Filho. A fundação do CTG 35 acabou por inaugurar uma senda de centros de cultura semelhantes, que hoje estão espalhados por todo o mundo. Mas o trabalho de Paixão e Barbosa Lessa estava apenas começando. 

Entre 1949 e 1952, a dupla estudou e catalogou mais de duas dezenas de danças praticadas no Rio Grande do Sul, para fundar, no ano seguinte, o grupo de dança Os Tropeiros da Tradição. As pesquisas também deram origem, em 1956, ao Manual de Danças Gaúchas e ao LP Danças Gaúchas, em que a cantora Inezita Barroso gravou sua voz no que é considerado o primeiro registro em fonograma do resultado das pesquisas dos folcloristas. 

 O MTG ficou para trás 

Em 1961, a dança levou Paixão a Paris, onde passou cinco meses divulgando a tradição gaúcha em todo tipo de lugar _ do Olympia à Sorbonne _ e “bebendo e comendo naqueles cabarés”, como lembrou em entrevista a ZH em 2004: _ Eu não conhecia nada de Paris, fora uma coisa ou outra de leitura. E não tinha salário lá, porque os meus vencimentos estavam aqui. E, mesmo assim, fiquei cinco meses lá comendo e bebendo e indo pra lá e pra cá, só dançando, só sapateando. Patrono da Feira do Livro de Porto Alegre em 2010, Paixão jamais deixou de trabalhar na pesquisa das manifestações culturais identificadas com o Estado. Em outra entrevista a ZH, concedida em 2013, revelou que seguia trabalhando na organização e sistematização da pesquisa realizada ao longo de toda sua vida, e que gostaria de publicar em uma edição única de aproximadamente 700 páginas. Paixão tinha até um título provisório para a obra, que vinha alinhavando com a ajuda do filho Carlos Paixão Côrtes: Dançando à Moda dos Antigamentes. Combinava o trabalho com os cuidados à saúde já debilitada: entre o final de 2012 e o começo de 2013, ficou quase quatro meses internado em um hospital devido a complicações de uma diverticulite (inflamação de bolsas no intestino grosso). Em seus últimos anos, demonstrou mágoa com os rumos do MTG e a condução de duas diretrizes por parte dos dirigentes atuais do movimento. Na entrevista publicada em Zero Hora em 2010, questionou a “obsessão com o passado” e o “fechamento absoluto para valores a serem descobertos” no presente e, quem sabe, no futuro. _ A tradição é algo que brota espontaneamente. No momento em que ganha formas delimitadas, exatas, ela perde a própria razão de ser — disse. 

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