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Opinião09/08/2018 | 08h00Atualizada em 09/08/2018 | 08h00

André Costantin: seis rosas vermelhas

Não é prudente colocar o sangue em uma crônica

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Escrever com sangue é manchar as teclas do computador no caos do silêncio à meia-luz para então o humor vital do corpo escorrer pela máquina rotativa até as letras serem impressas no papel-jornal. Que depois com igual velocidade as palavras passarão – ou não – pelos olhos de alguém como um grito e serão descartadas tão logo no embrulho da feira, no tapete do carro embarrado, no mijo do gato.

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E depois de algum tempo quando o dentista estiver lhe apertando um dente ele vai contar que te leu quando acendia o fogo da lareira com aquele jornal e por isso a crônica velha teve sobrevida de outros três minutos antes de virar memória vã.

Não é prudente colocar o sangue em uma crônica, que – dizem os manuais e os escritores sensatos – deve ser um comentário breve das efemeridades, alguma cronologia do cotidiano. Mas sendo a crônica um fóssil de Cronos, o deus do tempo que tudo devora, não há como evitar as narrativas de sangue, o dente do tubarão.

Escrever com sangue é verter dúvidas e enigmas das pipas de vinho, uma ou outra gota de certezas, jamais conselhos. É sondar o mundo mágico que toca disfarçadamente no real, ver o invisível hoje de manhã no prato de oferendas colocado no trevo da estrada, com seis rosas vermelhas cruzadas em círculo.

Assim escrever com sangue tem sido viver seis dias da semana ruminando um gênesis mental que vai dar em outra coisa no sétimo dia da quinta-feira – que por imposição do português já não posso mais ouvir o nome deste dia na doce língua morta do meu pai: zòbia. O dia de Júpiter.

É arquitetar uma teia de argumentos que, tal o fio da aranha, perde a liga no dia seguinte e precisa ser refeita toda meia-noite. É ver com melancolia os dedos gastos de Terezinha, que já não consegue mais imprimir as digitais nos documentos oficias, por efeito dos produtos químicos que durante 50 anos serviram para fazer os permanentes nos cabelos das freguesas do salão de beleza; é imaginar o que se passa na cabeça daquele cão perdido na Rota do Sol.

É pensar no meu vício de acumulador de coisas, logo adiante parar o carro e ver que não temos futuro no conteúdo dos containeres de lixo na Jacob Luchesi, ir dormir pensando no meu velho cajado de guamirim que perdi caçando cogumelos e acordar com vontade de escrever a possível biografia da araucária do terreno de casa.

Aí o sangue pulsa na crônica e hoje no cruzamento sinistro de Monte Bérico, onde a morte às vezes me pisca o olho, ali estão aquelas seis rosas vermelhas cruzadas no prato de oferendas.

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