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Opinião02/08/2018 | 13h34Atualizada em 02/08/2018 | 13h34

André Costantin: morte no Face

Na densa nuvem da fotografia digital, vamos ficando figuras humanas meio apagadas

Natalia Borges Polesso

nbpoless@gmail.com

Nunca vivi plenamente no Face. E assim também fui morrendo. Que esta minha débil existência virtual seja o oposto da jornada real. Minha última postagem data de muitos meses atrás. Fazia calor, eu dirigia, Clarice no banco de trás; íamos ver Aurora em Flores da Cunha. Vendo depois a imagem daquele momento, não fazia muito sentido. Melhor seria voltar às cenas em papel fotográfico, que melhor envelhecem as memórias, segredos e revelações nas gavetas de casa.

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Tem sido uma morte natural, sem dor nem consciência. Morro também porque não me interessam os devaneios paroquianos ou os círculos das relações induzidas pela grande rede. E mesmo algumas pessoas que eu conhecia e cultivava em mim, daqui ou de longe, começaram a perder a graça ali naquele teatro. Resolvi ficar com os cacos de vidro reais destas pessoas, estilhaçados por mim mesmo.

Dias atrás, nas trilhas de bike do Farroupilhão, alguém do grupo comentou que fulano estava caminhando nas montanhas do Peru. Comentei então que o sujeito, além de estar no Peru, estava – óbvio – no Face. Estivera antes da partida no Face, durante a viagem no Face, certamente estaria ali na volta. De repente desapareceu o mistério das pessoas. O que seria um rastro digital virou um diário explícito sem cadeado na capa.

No clássico ensaio intitulado A Câmara Clara, Roland Barthes atravessou certos simbolismos, mistérios e mitos do imaginário contemporâneo, à luz da presença definidora da fotografia. Barthes anotou, em certo trecho: "Diante dos clientes de um café, alguém me disse justamente – olhe como são apagados; hoje em dia, as imagens são mais vivas que as pessoas."

Na densa nuvem da fotografia digital, em tornados de selfies, vamos ficando – nós-outros, os atores reais – figuras humanas meio apagadas, sem graça, de volta às mesas daquele café de Nova Iorque ou Paris que alguém relatava para Barthes. A nossa representação extremada pela imagem no amontoa no palco. Desvanecemos. Caminhar nas montanhas, fazer aniversário, rir e chorar, sumir do mapa um tempo, tudo, antes de sentimento e fruição, vira Face, relato, imagem, notícia, nuvem.

Foi assim que eu fui vegetando na rede, um coma induzido. Pensei até cometer um suicídio ritual ao feitio dos guerreiros orientais, apertar o botão DELETE e... seppuku! – bye Face nas minhas entranhas. Mas não há ao menos uma questão de hora envolvida nessa relação. Só desinteresse. Não sou um samurai. Sou um moribundo na rede agonizante sacada por um esperto colegial ianque do século XXI.

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