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Opinião30/08/2018 | 08h59Atualizada em 30/08/2018 | 08h59

André Costantin: carne de pescoço

Na estrada, leio o para-choque de um caminhão: "quem muito fala, muito erra". Isso!

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

A palavra é no mais das vezes o que ela deve ser no seu sentido imediato, código reto e fiel, sim não talvez vou até ali na esquina que horas são (?) já volto meu amor. Mas, assim sendo, é quase sempre uma palavra morta, plena de sentido prévio, banal, utilitária, dita antes do dizer. Por isso as pessoas conversam tanto, falam demais, emitem fonemas significantes como se respira ou se faz a digestão. Na estrada, leio o para-choque de um caminhão: "quem muito fala, muito erra". Isso! Prefiro me esconder no silêncio. Se escrevo, sinto-me condenado a uma missão, como um servo fanático do Senhor: estripar as palavras. Ver do que elas são feitas por dentro e no avesso, também externamente, na aparência. Pois o verbo se fez carne na criação do mundo. Ontem, bebendo com um amigo, ele comentou do nada que precisa prestar muita atenção para ler as minhas crônicas, uma espécie de sofrimento de leitura. Ele me lê por consideração, acho. Outro, amigo velho, escultor, contou que lia um texto meu mastigando as palavras. Um terceiro, tempo atrás, em roda de conversa que já me colocava no viveiro dos lunáticos, deu-me um salvo conduto: considerava ele que os meus escritos não eram para explicar ou chegar a lugar nenhum, mas para confundir as tábuas do assoalho sob os pés do leitor. Carne de pescoço, sangue de costela pingando na toalha, escada caracol com degrau em falso. Diz a placa: "Atenção – pista escorregadia" Escrever é para mim a agulha no vinil vibrando Belchior: "sons, palavras, são navalhas; e eu não posso cantar como convém sem querer ferir ninguém". Se a música, sendo um conjunto de palavras encantadas em melodias, corta e fere, atravessa o corpo, quanto mais será a escrita, caractere cru e nu sobre papel ou tela, a mais pura abstração que nos liga, leitor. Me nego ao cronicão, ao comentário panorâmico dos fatos no tempo. Erro, mergulho, represo as palavras; me agito muito na véspera da escrita, sonho, entro com o carro nos buracos da rua, olho parado pela janela na escrivaninha e então transborda um texto atormentado mas sincero, como quando manchamos as calças com respingos de água com Qboa. E o lance era só desinfetar o mijo do gato no piso do porão. Foi assim, com outra intenção, que teve início este breve devaneio sobre o escrever: eu pensava apenas falar do vazio ou do absurdo de significados de uma palavra que hoje se lê com naturalidade nos pára-brisas de carros usados e maquiados à venda nas concessionárias e picaretas da cidade: "veículo seminovo".

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