Marcos Kirst: o limpador de sapatos  - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião09/07/2018 | 09h20

Marcos Kirst: o limpador de sapatos 

O flagrante foi obtido a partir da janela de um prédio, nos subúrbios de Paris

"O limpador de sapatos" é como ficou conhecida e entrou para a História a primeira imagem registrada fotograficamente de um ser humano. Na verdade, aparecem no retrato dois seres humanos: o limpador de sapatos em si, agachado à direita, no canto inferior esquerdo da composição, e o cliente que faz uso de seus serviços, o dono dos sapatos, à esquerda, em pé, com uma perna alçada e apoiada sobre a caixa a partir da qual os pisantes são lustrados. Na verdade, também, não se trata de uma fotografia na concepção atual do termo, mas, sim, de um daguerreótipo, método inventado pelo cientista francês Louis Daguerre (1789-1851), um dos precursores mundiais dos sistemas de captura e fixação de imagens por meio de processos químicos.

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O flagrante típico do cotidiano foi obtido a partir da janela de um prédio em que Daguerre se instalou com sua parafernália, nos subúrbios de Paris, há exatos 180 anos, em 1838. Naqueles tempos de antanho, ele e outros inventores davam os primeiros passos para a rápida criação dos processos fotográficos à base de filmes, que passariam a registrar a saga da humanidade a partir de então, resultando décadas mais tarde nas ultramodernas câmeras digitais e nos smartphones, que permitem o desvario sem fronteiras da expressão da vaidade e do cultivo do narcisismo coletivo por meio das adoradas selfies, de reprodução instantânea, porque, afinal, não faz bem para o ego deixar a autoestima esperando. Vale aqui ressaltar e contrastar o tamanho do anonimato a que estão relegadas para sempre essas duas históricas figuras, que, sem jamais terem se dado por conta disso, acabaram se transformando nos dois primeiros seres humanos a terem suas imagens eternizadas por meio de um retrato fotográfico. Simplesmente estavam no lugar certo na hora certa, pessoas comuns vivendo em Paris suas vidas comuns. Delas, nada mais sabemos, sequer os detalhes de suas feições (apenas as silhuetas esfumaçadas pelo tempo).

O que sabemos é que, há quase dois séculos, os humanos dominam a técnica de registrar e perenizar as imagens de si mesmos e dos outros, de seus feitos e defeitos, sem mais precisar recorrer aos pintores e aos escultores que, via de regra, só retratavam para a posteridade a elite abonada e afamada. De Daguerre para cá, a possibilidade de captura de nossas imagens próprias concorre para tirar qualquer um de nós do anonimato e alcançar a perenidade visual. Mas a questão que permanece é: que tipo de imagem andamos tratando de cultivar? E, dependendo da resposta, será ela passível de ser revelada por uma selfie? Vai saber...

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