Homofobia, racismo, ídolo controverso: a Copa do Mundo está acabando, mas deixa assuntos pendentes - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Debates13/07/2018 | 16h48Atualizada em 13/07/2018 | 16h49

Homofobia, racismo, ídolo controverso: a Copa do Mundo está acabando, mas deixa assuntos pendentes

Mundial da Rússia, que se encerra neste domingo, trouxe à tona polêmicas novas e antigas para discussão

Homofobia, racismo, ídolo controverso: a Copa do Mundo está acabando, mas deixa assuntos pendentes Arte de Rodolfo Guimarães/Agência RBS
Foto: Arte de Rodolfo Guimarães / Agência RBS

A edição de 2018 da Copa do Mundo chega ao fim  neste domingo. E, se nos gramados o Mundial da Rússia ficou marcado pela despedida precoce da atual campeã, Alemanha, e de craques badalados como Cristiano Ronaldo e Messi, fora das quatro linhas os assuntos como homofobia, machismo e intolerância ganharam destaque. O torneio deste ano também fez com que discussões sobre paixão por futebol e amor a ídolos voltassem à tona. O craque Neymar, que tinha tudo para ser idolatrado em sua segunda Copa, virou piada (e memes!) graças a sua antipatia e falta de espírito esportivo. E, ao contrário da Copa no Brasil em 2014, não se viu tanta empolgação de torcidas neste Mundial. Foram poucos os jogos que motivaram encontros de amigos em bares ou em casa mesmo. Seria o início de uma mudança de comportamento?

O Almanaque preparou um balanço dos temas que repercutiram ao longo da Copa, mas que não se esgotam no apito final. Confira abaixo:

Machismo de volta
A bola mal havia rolado nas imponentes arenas da Rússia quando as primeiras cenas de assédio envolvendo brasileiros viralizaram nas redes sociais. O caso mais emblemático foi o vídeo que mostra um grupo ridicularizando uma jovem russa, induzida a repetir palavras que remetem ao órgão sexual feminino. Não bastasse a polêmica causada pelas imagens, o ministro do Turismo, Vinicius Lummertz, minimizou o episódio. Em entrevista, afirmou que a grande repercussão do caso se deve às redes sociais, e não à gravidade do fato, uma vez que “não morreu ninguém”. A declaração não surpreende a historiadora e antropóloga Beatriz Kanaan:

– Nós temos um governo machista e com posturas que podem ser lidas como preconceituosas – avalia a professora da Universidade de Caxias do Sul (UCS).

Dados divulgados nesta semana pela Fare, entidade parceira da Fifa no monitoramento de casos de discriminação, indicaram que 45 episódios de assédio sexual foram registrados na Copa. Um número alarmante, mas que infelizmente é realidade. No entendimento da antropóloga, atitudes machistas não serão eliminadas da noite para o dia. 

– É muito difícil se libertar de uma hora pra outra, mas é interessante notar que estamos ficando mais atentos. Basta ver a repercussão – finaliza a professora.

Homofobia e racismo em pauta

Fernanda Gentil
Foto: Rede Globo / reprodução

Um dos países mais homofóbicos do mundo, onde o amor entre pessoas do mesmo sexo se dá às escondidas, a Rússia teve que abrir a cabeça para receber turistas de todo o mundo e de diferentes orientações sexuais.

Embora manifestações sejam proibidas, um protesto criativo de um grupo de jovens ativistas chamou a atenção e foi assunto no mundo inteiro. Vestindo camisetas de diferentes seleções, cujas cores formavam um arco-íris (um dos símbolos da causa LGBT), transitaram e tiraram fotos pelas ruas de Moscou. Em uma entrevista, a apresentadora global Fernanda Gentil ironizou os costumes russos contra homossexuais. Ela, que namora a jornalista Priscila Montandon, disse durante o programa Encontro com Fátima Bernardes, que estava trabalhando, mas respeitando as regras do país: “Estou bem menininha”.

Ainda falando em intolerância, é preciso protestar os ataques racistas proferidos contra o volante brasileiro Fernandinho nas redes sociais. Negro, o jogador que marcou o gol contra que abriu caminho da vitória da Bélgica contra o Brasil nas quartas de final, foi alvo de postagens racistas. Embora uma onda de manifestações em seu favor tenha ocorrido, o episódio deixou claro que o Brasil ainda está muito longe de erradicar o preconceito.

Neymar, ídolo controverso

 Brazils forward Neymar falls during the Russia 2018 World Cup Group E football match between Brazil and Switzerland at the Rostov Arena in Rostov-On-Don on June 17, 2018. / AFP PHOTO / Jewel SAMAD / RESTRICTED TO EDITORIAL USE - NO MOBILE PUSH ALERTS/DOWNLOADSEditoria: SPOLocal: Rostov-on-DonIndexador: JEWEL SAMADSecao: soccerFonte: AFPFotógrafo: STF
Foto: Jewel SAMAD / AFP PHOTO

Para estabelecer a comparação apenas com ídolos recentes, citemos Romário, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho. No imaginário da nação, o Baixinho nunca deixou de ser o cara ligado à periferia do Rio de Janeiro, para onde retornou em pleno auge da carreira; o Fenômeno é o exemplo de superação que enfrentou lesões graves e a desconfiança de que não conseguiria superá-las; Gaúcho é o cara do sorriso tímido contrastante com a rara desenvoltura para enfrentar as defesas adversárias, genialidade pura. Neymar, o candidato a sucessor dessa linhagem de craques, não dá motivo algum a torcer por ele e, dessa forma, se tornar um verdadeiro herói (que precisa despertar, além de admiração, empatia). 

Aos 26 anos, o maior talento brasileiro da atualidade chegou à sua segunda Copa do Mundo como candidato a conquistar o título de melhor jogador do mundo, mas tudo o que conseguiu foi virar piada mundial pelo comportamento em campo (especialmente pelas quedas forçadas para provocar faltas, mas também pela individualidade excessiva e a preocupação igualmente exagerada com os penteados inovadores). A performance com e sem a bola de Neymar na Copa do Mundo nos levam a pensar: talento é motivo suficiente para forjar um ídolo?

Desinteresse recorde
Embora ainda garanta as audiências mais expressivas para a televisão, foi-se o tempo em que o país parava, quase que literalmente, para torcer pelo Brasil na Copa do Mundo. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha às vésperas do início do Mundial apontou um desinteresse de 53% dos entrevistados em relação à competição.

Percentual maior do que o revelado pela mesma pesquisa feita em janeiro, quando o índice de indiferença era de 42% (se a resposta mais recorrente no início do ano era o vergonhoso 7 a 1 de 2014, a instabilidade política e econômica crescentes e a ressaca da greve dos caminhoneiros podem ter contribuído para atingir o "anticlímax"). A marca foi a mais alta desde que a medição começou a ser feita, em 1994. Na Copa do Mundo daquele ano, em que o Brasil conquistou o tetra, 20% da população alegou ignorar o maior torneio de seleções do mundo. 

Vale destacar que o futebol como um todo está perdendo espaço no coração dos brasileiros. Há pelo menos três anos, pesquisas do Ibope sobre quais os times preferidos da população têm tido como resultado mais expressivo o número de pessoas que não torce para time nenhum, que beira 20%. Especialistas apontam a baixa qualidade do espetáculo, escândalos de corrupção na CBF e a desorganização do calendário _ traduzida num número excessivo de jogos _ como fatores.

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