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Opinião25/07/2018 | 07h45Atualizada em 25/07/2018 | 07h45

Andrei Andrade*: sobre ser uma lembrança

Logo seremos mera invenção. Nossas histórias serão contadas por quem nem nos conheceu

Já faz alguns dias, uma amiga me contava sobre como a relação da sua filha pré-adolescente com o pai, seu ex-marido, dificilmente será tão próxima quanto a que a menina teve com o seu último namorado, com quem dividiu o apartamento por alguns poucos anos. Embora esse convívio tenha sido interrompido pela partida precoce do rapaz, vítima de uma doença incurável por volta dos 40 anos, as marcas deixadas na personalidade da menina são profundas.

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Enquanto ouvia o relato sobre como a jovem diariamente recorda da companhia legal que o cara era, das brincadeiras e da atenção que dispensava ou de algum trejeito peculiar, com uma nostalgia incomum para a pouca idade, me perdi pensando nisso que é se tornar uma memória boa para alguém. E no quanto isso é grande.

Mesmo sem ter conhecido esse namorado, me senti próximo a ele. Talvez seja por admirar o drible que aplicou no destino antes de ser por ele agarrado. Ser a boa recordação de alguém a quem tu fez algum bem é prolongar naquela pessoa o carinho dado e recebido. Mesmo sem estar vivo para senti-lo, de certa maneira é continuar existindo.

A gente fica mais velho e cada vez mais cheio de saudades, mais incompleto pelas perdas. Equilibramos numa mão a felicidade das experiências vividas, noutra a tristeza pelo que o tempo não traz de volta. Logo também seremos só lembranças, até que nossas histórias serão contadas por gente que nem nos conheceu. Seremos mera invenção, personagens recriados na imaginação de quem só ouviu falar de nós. E ainda assim, o que fizemos por aqui importa. 

Quem parte deixa a quem fica os sentimentos que transmitiu. Se a relação em vida foi boa, inevitavelmente haverá a dor, mas logo em seguida virá a beleza de uma saudade boa. É como uma melodia que vai encontrando a afinação correta. Viver e se relacionar é tão difícil, que normalmente a gente erra. Só por isso as boas relações nos fazem sentir tanta falta. Seja nas tuas relações atuais ou nas que vierem pela frente, não perca uma chance para acertar e um dia ser uma boa recordação.

* O colunista Ciro Fabres está em férias

 
 
 

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