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Opinião12/07/2018 | 08h00Atualizada em 12/07/2018 | 08h00

André Costantin: vin que béca (a cultura do vinho)

A cultura do vinho é um traço fundador da região

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

O título desta crônica é uma forma possível de escrita do Talian, o idioma de amálgama da imigração italiana no Brasil, trasvasado no Português. Uma língua brasileira, entre outras 30 de imigração e mais de cem tradições orais indígenas que vão definhando no tempo e no mapa de uma nação multilíngue na origem, mas que escolheu ser monoglota.

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Falo em idioma, não em dialeto – que acho perfeita a definição de um linguista clássico, por certo que seria francês, Émile Benveniste, de que "uma língua é um dialeto com marinha, exército e aeronáutica". Pronto, é isso: língua ou dialeto, a diferença entre elas é uma questão de poder. Lembro do personagem de um documentário, do outro lado do mar, que dizia: "uma língua permanece forte até que os seus falantes sintam orgulho de falar esta língua". O uso define as coisas.

Mas eu uso a expressão "vin que béca" do fundo da minha memória – e logo a explico – para falar de um outro traço cultural fundador da nossa identidade: a cultura do vinho. Nascemos nesta cultura ou tomamos parte dela, em diferentes gradações e tons, urbanos ou rurais, no porão escuro da casa do nono ou nas prateleiras enfeitadas dos hipermercados, no garrafão de palha de vime e depois de plástico ou nas garrafas de grife com seus rótulos imitando o velho mundo.

A cultura do vinho é um traço fundador da região. Mas assim como o idioma, corre o risco de se perder em sotaques forçados, estereótipos, artificialismos, modismos e outros ismos de inspirações mercadológicas e comportamentais. Como se explica, por exemplo, que na minha pequena rotina de desobediência civil e de sagração do cotidiano, peço no almoço uma taça de vinho branco em um restaurante comum do bairro Rio Branco, e vem na comanda um valor de R$ 7,00 – contra R$ 13,00 gastos com o prato de comida?

Quanto à taça: pequena, do tamanho de um copo americano, desses de tomar cachaça em bodega. O vinho, singelo Moscato, vinha de uma embalagem bag; desnecessário fazer contas em mililitros para entender essa lógica destrutiva de enfiar um ágio de trocentos ou mais por cento em cima do vinho do dia-a-dia. O uso faz as coisas. A mensagem imediata é: o vinho é coisa para poucos. Envenenem-se ora pois com os refrigerantes, são da lei, vendem-se nos litrões que transbordam dos canaviais subsidiados do Brasil.

O espaço termina e eu não contei do "vin que béca". Fica para a próxima crônica. Com as bênçãos e o perdão de Dionísio, com acidez e doçura, vou me embrenhando nestes parreirais.

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