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Opinião19/07/2018 | 08h30Atualizada em 19/07/2018 | 08h30

André Costantin: Vin che béca (mais do vinho)

Mas o que tem a ver o idioma com o vinho? A língua os une, pelo gosto e pela fala

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Retomo as palavras em talian da crônica anterior para ir sondando um pouco mais a nossa identidade ligada ao vinho. Eis a frase: “Me piase vin dolso, ma che béca anca”. Na minha versão imediata e emocional ao português, seria: “Eu gosto de vinho doce (suave), mas que também morda um pouco”.

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Escrevi naquela crônica “vin que béca”, admitindo o pronome “que” misturado na língua da imigração, ao invés de usar o “che” oriundo do italiano – coisa de um falante tardio e incompleto do talian, o idioma das nonas e dos nonos que esteve a caminho por um século e que, agora, que vai morrendo entre nós, passa a ter a sua gramática consolidada. O talian foi uma língua falada, pouco escrita.

Consultando o garimpo poético de Ítalo Balen, no livro Os pesos e as medidas (1981), e o dicionário empreendido por Darcy Loss Luzzatto, Português – Talian (2010), vejo que a escrita do talian pede o “che”, embora nosso ímpeto de falantes do “brasileiro” nos induza a ler tal grafia com som de “x”.

Mas o que tem a ver o idioma com o vinho? A língua os une, pelo gosto e pela fala. E assim como o idioma nascente (e morrente), me parece que a cultura do vinho no Brasil, ancorada fortemente em nossa região, precisa ainda decifrar as suas raízes, misturas e adaptações ao novo mundo, encontrar a sua identidade profunda.

Quando eu leio em revistas e jornais que uma grande vinícola daqui mergulha uma partida de vinhos no Atlântico Norte para obter determinadas magias etílicas, como fazem certas grifes francesas, ou que um famoso narrador global estende tapetes metalizados no chão dos seus vinhedos no Pampa, para captar mais a luz do sol, ao gosto de enólogos estrangeiros, isso tudo me dá uma certa ânsia de... escrever. Imitadores, parecemos assim vira-latas tomando o chá das cinco.

Volto ao talian: “Gosto de vinho suave, mas que também morda um pouco”. Ouvi isso ainda criança. A expressão vinha da boca de um ancião que vivia isolado no alto de uma colina em Vila Rica de Arco Verde, outrora interior de Garibaldi. Neno de Bortoli, assim era chamado. Ele fazia o vinho no porão da casa; vertia um pouco da pipa de madeira, depois oferecia em caneca de alumínio. Não havia taça, nem copo de vidro.

Aquele vinho rústico era o seu bem mais precioso, seu único regalo aos raros visitantes do ano. Um vinho que era suave no início, mas que também mordia, bicava, ardia, atacava. No seu jeito e na sua língua, o ancião dizia um segredo do nosso vinho: a leveza e a acidez. O vinho do Brasil busca uma gramática.

 
 
 

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