Alunos da rede pública de Caxias do Sul soltaram a voz e a rima no projeto Cultura Hip Hop nas Escolas - Cultura e Tendência - Pioneiro

Versão mobile

 

Conscientização27/07/2018 | 15h00Atualizada em 27/07/2018 | 18h06

Alunos da rede pública de Caxias do Sul soltaram a voz e a rima no projeto Cultura Hip Hop nas Escolas

Projeto capitaneado pelo rapper Chiquinho Divilas visitou sete instituições. CD com as músicas dos estudanets será lançado no dia 11 de agosto

Alunos da rede pública de Caxias do Sul soltaram a voz e a rima no projeto Cultura Hip Hop nas Escolas Jéssica Drew/Divulgação
Chiquinho Divilas esteve à frente do projeto, que contou com palestra, oficina, gravação e apresentação para os colegas Foto: Jéssica Drew / Divulgação

Onde está o hip hop, a educação também está. E isso não poderia ser exemplificado de forma mais literal do que nas oficinas do projeto que provocou alunos de sete escolas de Caxias a se expressar por meio das rimas e da batida do rap, ritmo que embala a poesia de um dos movimentos que melhor traduzem a ideologia das periferias. Ao longo de sete semanas, o rapper caxiense Chiquinho Divilas liderou a equipe do Cultura Hip Hop nas Escolas, projeto que surpreendeu pelo engajamento de dezenas crianças e adolescentes das mais diversas realidades, cujo objetivo imediato é a gravação de um CD virtual com músicas escritas e cantadas pelos estudantes. Como objetivo perene, mostra a transformação pelo poder das palavras.

Entre as contempladas pela iniciativa estão instituições que lutam para mudar sua imagem ligada à violência e à evasão, como a Escola Rubem Bento Alves, no Loteamento Vila Ipê,  a Escola Paulo Freire, instalada no Centro de Atendimento Socioeducativo de Caxias do Sul (Case), o Instituto Cristóvão de Mendoza, maior escola pública de Caxias, entre outras. A professora de português do Cristóvão, Sandra Regina Ribeiro, que trabalhou a rima com os alunos do turno da noite ao longo de uma semana, destaca que o projeto despertou nos estudantes, inclusive naqueles menos interessados, a vontade de escrever e se expressar: 

– O desafio foi para que eles se entregassem à música, se soltassem e soltassem a voz, porque o hip hop é um grito de guerra. Eles venceram a timidez de tal forma que houve até campeonatos entre as turmas disputando qual rimava melhor.

Registro do projeto Hip Hop nas escolas, do rapper Chiquinho Divilas
O jovem César Oliveira, da Escola Dante Marcucci, experimenta gravar a própria voz sobre uma batida de rap pela primeira vezFoto: Jéssica Drew / Divulgação

A imersão ocorreu ao longo de uma semana em cada escola, sempre com uma noite de palestra sobre o hip hop; outra de oficina de criação; a terceira de gravação e a última de apresentação para os colegas. Convidados a colocar no papel seus sonhos, anseios e angústias, alunos como César Oliveira, da Escola Dante Marcucci, expressaram aquilo que enxergam como o papel fundamental da educação na construção de uma sociedade justa e com indivíduos conscientes.

– Gosto de escrever sobre como as pessoas devem buscar o melhor caminho para elas. Também sobre o racismo, um pouco sobre política – destaca o menino, que começou a praticar break (dança que dialoga com o rap e é parte da cultura hip hop) aos quatro anos em um projeto do bairro Reolon, e já disputa “batalhas” em diversas cidades do Estado. 

Sobre dicas pra transformar seus pensamentos em verso, o jovem é didático:

– A gente começa soltando as palavras no caderno, depois junta elas pra criar os versos, cantando junto pra ver como soam.

Entre os temas que inspiraram as rimas, também despontou a crítica social, que é um dos pilares do movimento hip hop desde o seu surgimento, nos anos 1970. Interessada pela realidade brasileira, a estudante Isabela Dutra, 18 anos, do Cristóvão de Mendoza, abordou o caso da vereadora carioca Mariele Franco, cujo assassinato, em março deste ano, ainda não foi esclarecido.

Projeto Hip Hop nas escolas, do rapper caxiense Chiquinho Divilas
Isabela Dutra, do Instituto Cristóvão de Mendoza, escreveu sobre o assassinato da vereadora carioca Marielle FrancoFoto: Jéssica Drew / Divulgação

– Era uma mulher preta, que lutava pelos direitos das minorias, e que teve sua voz silenciada – diz Isabela, que sempre gostou de escrever, mas até participar do projeto mantinha seus textos apenas para si.  

Coordenadora pedagógica da Escola Rubem Bento Alves, Joelma Rosa considera que levar o hip hop é uma forma de oferecer às crianças um conteúdo informativo dentro de uma linguagem que faz sentido para eles. Assim fica mais fácil abordar questões importantes, como o respeito às diferenças e a autoestima do jovem da periferia. 

– Foi muito proveitoso, principalmente por tratar da importância da expressão oral e corporal junto aos jovens, com muito cuidado para que eles escolhessem as melhores palavras a serem usadas, sabendo que elas ecoam. Coisas como não usar palavrões, como se referir com respeito a uma mulher. Os alunos entenderam que a proposta era falar sobre coisas legais e construtivas – elogia.

“É uma forma de resiliência”

Com a propriedade de quem experimentou na pele uma adolescência desinteressada pelos estudos, que o levou a evadir três vezes da escola, Jankiel Francisco Cláudio, o Chiquinho Divilas, desperta entre os jovens uma empatia compatível com o seu poder de comunicação com esse público. Em cada palestra, inspira pelo menos um novo adolescente desacreditado a buscar a redenção pelo conhecimento e pela cultura, como fez. 

Ao elaborar o projeto Cultura Hip Hop nas Escolas, viabilizado pela Lei Municipal de Incentivo a Cultura — com apoio cultural da Marcopolo e realizado em parceria com o Sesc e Festival Brasileiro de Música de Rua —, quis incentivar mais jovens a buscar o protagonismo em suas vidas, especialmente nas áreas mais carentes da cidade. 

– O hip hop nos permite transformar em versos e colocar ritmo nos nossos traumas, nas nossas tristezas, naquilo que estamos cansados. É uma forma de resiliência. Estufar o peito e ir em frente, mas sem fazer a coisa errada, porque a gente está toda hora vendo o que aconteceu com quem fez – argumenta o rapper. 

Projeto Hip Hop nas escolas, de Chiquinho Divilas, ocorreu em Caxias do Sul
Projeto reforçou a autoestima dos estudantes, em especial os do turno da noiteFoto: Jéssica Drew / Divulgação

Sobre o projeto, Divilas ressalta que é uma forma de contribuir para o empoderamento dos jovens, que por meio da rima e da sua atitude podem passar a reivindicar um futuro melhor. 

– O mais emocionante foi ouvir de professores, alunos e alguns pais que a nossa proposta fortaleceu e contribuiu para fomentar saberes e compartilhar vivências. Que tudo isso possa despertar o gosto pela leitura e estudo. Quem ganha é a comunidade – acrescenta Chiquinho. 

O CD virtual com as músicas produzidas durante as oficinas será lançado no dia 11 de agosto nas plataformas digitais e no canal Chiquinho Divilas no Youtube. A data é a mesma em que se comemora o nascimento do hip hop (em 1973, no bairro do Bronx, Nova York).

O que eles dizem

Dante querido o rap está contigo
Uma aula desse jeito nunca tinha acontecido
No país do futebol sem justiça social
Estudar é preciso pra você não se dar mal

Hey, hey! Então, não desanima
0 estudo é a cura para sua vida

Hey, hey! Então, não desanima
O estudo é a cura
Para os manos e para as minas
(trecho de Estudar é Preciso,
da Escola Dante Marcucci
)

E com tantas dores
Muito sangue derramado jorrou
É de índio, é de pobre
É de preto, é de nobre
E a maioria ninguém sabe quem matou
Expressão e voz ativa só na teoria
Afinal, critica pra tu ver
Se não sai algemado
Eles não querem gritos
Querem todos calados

(trecho de Quem Matou,
do Instituto Cristóvão de Mendoza
)

Leia também
Estilista Carolina Potrich armou brunch para apresentar coleção Poesias Urbanas
3por4: Festival de Gramado 2018 terá edição mais inclusiva da história
Tríssia Ordovás Sartori: desejos reais?

 
 
 

Veja também

 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros