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Opinião01/06/2018 | 15h27Atualizada em 01/06/2018 | 15h35

Tríssia Ordovás Sartori: estamos cegos

Experimentamos uma falta de civilidade dificilmente vista, uma corrida desenfreada aos mercados para estocar mantimentos, sem se preocupar com a população em geral

Tríssia Ordovás Sartori: estamos cegos Fábio Panone Lopes/
Foto: Fábio Panone Lopes
Trissia Ordovás Sartori

trissia.ordovas@pioneiro.com

Muito tem se falado sobre a obra Ensaio sobre a Cegueira, clássico do português José Saramago, lançado em 1995 e que também virou filme. Na história, um homem está dirigindo e, de repente, é acometido por uma cegueira branca. Ele é o primeiro de toda uma população contaminada – apenas uma mulher fica ilesa, mas o "castigo" maior é o dela. É justamente ela que vê os horrores nesse lugar: as reações das pessoas brigando pela comida racionada, deparando-se com situações novas e tendo que enfrentar novas relações de poder, ganância, vergonha.

A sujeira, a correria, a pretensa luta pela sobrevivência.Eis o que experimentamos, num nível light, nos últimos dias, por causa das paralisações. Uma falta de civilidade dificilmente vista, uma corrida desenfreada aos postos e mercados para estocar mantimentos, sem se preocupar com a população em geral – aqui, já estratificada, em referência apenas àquela que frequenta supermercados. Em situações lidas como "limite" (permitam-me o exagero) nos deparamos com o nosso pior, com nosso egoísmo e com a nossa falta de empatia.

Em uma das passagens do livro, Saramago escreve: "Por que foi que cegamos, não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem".

Se metaforicamente a visão tem esse papel, literalmente ela também influencia muito da forma como percebemos as coisas. E, por focarmos nossa atenção com muito mais força à esse sentido, ele costuma nos enganar sem que percebamos. Eis o Efeito McGurk, espécie de ilusão de óptica auditiva, fenômeno registrado pela primeira vez no final da década de 1970, no artigo chamado Ouvindo lábios e vendo vozes, publicado pelo psicólogo Harry McGurk, juntamente com John MacDonald. No texto, eles defendem que a percepção do discurso não depende apenas do som, mas da visão e da relação entre som e visão. Ou seja, a forma como uma pessoa mexe os lábios ao falar, pronunciando o mesmo fonema, provoca sensações diferentes no espectador/ouvinte (para entender melhor, basta procurar no YouTube "efeito McGurk").

Eis a lição desse "caos": mesmo podendo ver, não estamos sequer nos enxergando. 

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