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Opinião22/06/2018 | 18h41Atualizada em 22/06/2018 | 18h43

Nivaldo Pereira: na casa canceriana

Eis a casa mais antiga da cidade. Olhe bem. Tudo nela exala histórias

Nivaldo Pereira: na casa canceriana reprodução/reprodução
Foto: reprodução / reprodução
Nivaldo Pereira
Nivaldo Pereira

nivaldope@uol.com.br

Eis a casa mais antiga da cidade. Olhe bem. Tudo nela exala histórias e memórias. Afetos e sonhos – que nunca envelhecem – saltam de cada camada de tinta de suas paredes. Apesar do frio daqui de fora, as vidraças transpiram o calor de dentro, uma quentura mista de lareiras, fogões e peitos aconchegados em abraços. É uma casa-carapaça, dentro da qual os cancerianos se sentem protegidos para deslindar nuances do signo da alma. Vamos espiar?

Na sala, sob a luz amarela de um velho abajur, a escritora Zélia Gattai, de olhos úmidos, revê um álbum de fotografias em preto e branco. Marisa Monte se chega e, a pedido da escritora, cantarola uma antiga canção napolitana. Torna a Surriento. As imagens do álbum parecem vivas de novo. E o coração de Zélia, de tanto amor, se transfigura no Coração de Jesus.

Ao pé da lareira acesa, sobre um tapete inca, Frida Kahlo deita a cabeça no colo de Mercedes Sosa. Ah, Pietá ameríndia! Que dor resiste a um afago de mãe, que medo não sucumbe ao ventre primordial da América? Frida se aninha mais ao sabor de uma canción de cuna na voz de La Negra. Duerme, duerme, negrita... E Frida sonha com uma corça livre na floresta.

Aqui, a biblioteca da casa. Entre livros encadernados em couro, o historiador Sergio Buarque de Holanda explica ao escritor Marcel Proust sua visão do brasileiro como um tipo que age a partir de uma ética dos afetos. Gostamos de gostar, queremos intimidade familiar em tudo. Longe da racionalidade francesa, Proust parece entender bem o ser brasileiro. E mergulha seu biscoito no chá, deixando os sentidos abrirem a cortina do passado.

Veja quanta gente na cozinha! Ao redor de uma fumegante panela de barro, Gilberto Gil e Raul Seixas trocam lembranças das receitas de família. Na mesa, Meryl Streep e a Princesa Diana fazem tricô e choram relatos de crianças sem lar e sem infância. Saint-Exupéry desenha o Pequeno Príncipe e a Raposa na vidraça embaçada. Ao estalar das brasas, a casa-carapaça se faz ninho fértil do mais que humano em nós. E a vida brota do feminino coração de Deus

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