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Opinião12/06/2018 | 10h41Atualizada em 12/06/2018 | 10h41

Natalia Borges Polesso: famílias reais e bandeiras

Nenhum símbolo é inocente. As bandeiras que despontam cheiram mal

Natalia Borges Polesso

nbpoless@gmail.com

No domingo, minha família veio almoçar aqui em casa. Foi um daqueles almoços fartos em que cada um traz "uma coisinha" para complementar os sete pratos diferentes que você fez, para o caso de alguma restrição alimentar. Seu pai traz vinho, seu padrasto traz mais vinho, você comprou vinho, refrigerante, suco, cerveja, água. A bebida está garantida para uns três ou quatro almoços daquele. Minha família não se reúne nunca. Cada um mora num Estado ou país diferente e, às vezes tenho a impressão de que moramos mesmo em planetas diferentes. Faltou gente, é claro. Mas deu para ter aquela sensação de "almoço de família". Geralmente, minha irmã, minha esposa e eu almoçamos com meu pai, que mora aqui na cidade.

Primeiro que o ambiente sonoro da casa se transformou. A televisão foi ligada e a narração do jogo se somou aos gritos do amistoso pré-Copa que se somaram à gritaria normal do Tá pronto? Faz a maionese? Tem de esquentar o aipim que a gente trouxe! Tá ali ó que se somou eventualmente à algazarra do debate político, é claro, não poderia faltar este tempero, para alguns, indigesto.

Baixada a bandeira do Brasil depois do 3x0, cada um foi hasteando muito lentamente suas outras bandeiras. Instaurou-se o caos. Os gritos gastronômicos foram substituídos por ladrão!, vagabundo!, roubalheira! Não, é que tem de pensar na economia! Eu, obviamente, me somei ao coro bem à esquerda da mesa. Foi um alento perceber que nenhuma mulher da minha casa vota em boçais que apoiam a ditadura, exaltam a tortura e usam impunemente a ideia de estupro. Aliás, o argumento delas foi que uma mulher minimamente consciente de seu lugar social não vota naquela aberração. Não senti tanto alento com as opiniões advindas de alguns dos homens. Juro que, em que pese os absurdos, foi até um debate saudável. Ao fim, guardadas as bandeiras partidárias, estendi bem grande a bandeira simbólica da diversidade, para deixar claro que tipo de lar é o meu.

Bem mais tarde, depois dos estudos e da limpeza, passando os olhos no feed do facebook, me deparo com duas manchetes bizarras: 1) que mercado financeiro sinaliza que aceita o tal candidato exaltador da tortura como presidente; e, 2) que em Rondônia, foi aprovada uma lei para que todas as escolas públicas e particulares sejam obrigadas a hastear a bandeira do Brasil, do Brasil Império e do Estado, durante todos os dias letivos.

Nenhum símbolo é inocente. As bandeiras que despontam cheiram mal.

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