Natalia Borges Polesso: couve - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião05/06/2018 | 10h48Atualizada em 05/06/2018 | 10h48

Natalia Borges Polesso: couve

Como eu disse, não me orgulho disso, mas confesso que também não desgosto

Natalia Borges Polesso

nbpoless@gmail.com

Eu cultivo um hábito do qual não me orgulho muito. Não sei bem se cultivo ou se é apenas a força do próprio hábito que o mantém por si. O fato é que acordo muito cedo todos os dias. Meu normal, sem compromissos, é cinco, cinco e meia da manhã. Vejam, eu trabalho em casa, não precisaria levantar a esta hora, mas é nesta hora que meu corpo se sente apto a existir. Às vezes, acordo às seis, seis e meia e, com muita sorte, nos fins de semana, às oito, mas é raro. Hoje é domingo, faz quatro graus e desde as seis estou de pé.

Como eu disse, não me orgulho disso, mas confesso que também não desgosto. As manhãs mais silenciosas me ajudam a pôr as coisas em ordem dentro e fora de mim. Primeiro, a louça da janta, depois a comida dos gatos, o café, um suco, água para as plantas, alguma roupa que dormiu no varal e, finalmente, ao outro trabalho.

Neste tempo de silêncios, me ponho a pensar em acontecimentos do dia anterior ou algo que na semana tenha me chamado atenção. Hoje foi o caso de rememorar o encontro fortuito com uma ex-aluna e amiga muito querida, e ter sido lembrada de que encaramos o mundo de perspectivas muito distintas. O que me fez pensar não exatamente nela ou no nosso encontro, mas sobre o que aconteceu depois, na feira.

Com minha sacola quase completa, paro em frente a uma banquinha e peço à senhora feirante “um pacotinho de couve já cortado, por favor”, no que um senhor diz “só tem isso de couve?” e começa a empilhar três, quatro, cinco, oito, todos os pacotes, já separando o dinheiro certo. Olho para a feirante, que pega um dos pacotes e me entrega. Eu agradeço e olho para o senhor couveiro e pergunto “o senhor ia mesmo levar todos os pacotes, mesmo tendo me visto aqui do seu lado pedindo um?” Mas a resposta não veio. Me senti completamente invisível. Peguei minha couve e saí. Encontrei minha tia na barraquinha seguinte e apontei o homem, dizendo “tu acredita que ele ia levar toda a couve? Mesmo vendo que eu tinha pedido um pacote antes dele, acredita?” Apontei de novo, mas continuei invisível pra ele, aparentemente.

Agora de manhã, penso nessas pequenas enormes ações de egoísmo esquizofrênico, essa incapacidade de discernir o real, essa esperteza tacanha que grita “primeiro eu! depois, se der, o resto!”, penso em tudo isso, enquanto tomo meu suco de couve com maçã e lima, penso em quem não tem nada disso, penso no homem da couve, o tiozão da couve. Será que vai ele fazer toda? Ou vai deixar metade apodrecer na geladeira? Penso no meu desperdício, no meu desrespeito, penso que se todos fizessem esse exame diário, talvez, o mundo pudesse ser um pouquinho melhor. Penso que acordar cedo me faz bem, mas também me põe num humor melancólico de bílis negra que só mesmo o suco de couve para ajudar a curar. Talvez eu não devesse acordar tão cedo.

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