Gilmar Marcílio: perfeitos desconhecidos - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião08/06/2018 | 07h00Atualizada em 08/06/2018 | 07h00

Gilmar Marcílio: perfeitos desconhecidos

Você deixaria seu celular sobre a mesa, partilhando com todos as ligações e mensagens recebidas?

Imagine a seguinte cena: Três casais e um homem solteiro, todos amigos entre si, reúnem-se no apartamento de um deles para jantar. Ao primeiro brinde, alguém propõe uma brincadeira que julga inocente: durante algumas horas, enquanto estiverem fazendo a refeição, colocarão seus celulares sobre a mesa. Qualquer ligação ou mensagem que entrar será partilhada com os demais. Em princípio sem grande resistência, todos acabam aceitando. O que se verá em seguida oscila entre o horror e a comédia. Sem nunca deixar de ser divertido e reflexivo ao mesmo tempo, o filme Perfectos Desconocidos (Netflix), do diretor Álex de la Iglesia, pretende ser uma radiografia crua das relações afetivas, sobretudo aquelas contaminadas pela corrosiva passagem do tempo. Em diversos momentos, inevitável perguntar a si mesmo: será que eu teria a coragem de entrar num jogo assim? Tudo que vivo, em termos afetivos e sexuais, pode ser escrutinado em praça pública? Parabéns se respondeu com um categórico sim às duas questões, sem pestanejar. Eu, como a maioria dos mortais, hesitaria, pois quem não guarda algo que não quer partilhar com os demais? Provavelmente está longe de ser bombástico, mas, por situar-se nos escaninhos da intimidade, assim quer permanecer.

Caso tenha alguma predisposição para doenças cardíacas, sugere-se ficar longe desse tipo de provocação. A vida da maioria não guarda grandes surpresas e costuma repetir o roteiro que foi ensinado ainda em criança. Justamente por isso é que é tão comum, mesmo entre os mais certinhos, a existência de algo que se esgueira nas sombras. É uma válvula de escape legítima e que, muito provavelmente, contribui para a manutenção de diversos casamentos, quando não da tranquilidade dos envolvidos nas artimanhas amorosas. Podemos até deixar de colocar em prática a maioria dos nossos desejos, mas se nos for oferecida alguma oportunidade, é bem provável que diremos sim a essas doces tentações que o mundo expõe diante de nós. Até porque é isso que, muitas vezes, ajuda a salvar relações desgastadas, mas mantidas em prol das aparências. Afinal, deve ser bem chato não transgredir nunca, repetindo sempre o catecismo aprendido. Optamos por continuar mentindo ao invés de correr algum risco de romper vínculos muitas vezes mornos, mas cômodos, confortáveis. As redes sociais potencializaram esses pequenos desvios que, ao fim e ao cabo, terminam por dar mais sabor a tudo.

Uma coisa é ser voyeur do comportamento alheio e diverso é ser vítima do escrutínio dos outros. Gostamos de pensar em nós como exemplos a serem imitados. Aproxime uma lupa de qualquer um e verá que não há grandes diferenças quando o assunto é esse. E cada um tem a sua área escura que visita sozinho. E assim é porque a civilização foi fundada sobre inúmeras repressões, como sinalizou Freud em sua obra.

A delícia de ser tentado. O prazer de saber que estamos quebrando normas. Para muitos é uma prática que não nos expulsa daquilo que convencionamos chamar de normalidade. Pelo sim, pelo não, pense antes de entrar num jogo como esse. O maior surpreendido pode ser você.

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