Gilmar Marcílio: o direito de errar  - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião 29/06/2018 | 14h37Atualizada em 29/06/2018 | 14h37

Gilmar Marcílio: o direito de errar 

Como sempre, entre e linguagem e a prática, a distância pode ser incomensurável.

 Ainda hoje procuro entender porque algumas pessoas se orgulham tanto ao dizer essa frase: "Comigo é assim: aprontou uma vez, não esqueço jamais." Tenho dificuldade em assimilar o que alguém ganha ao se postar num pedestal, acreditando que é dono da verdade e que sua cota de equívocos e desacertos é distribuída unitariamente entre todos aqueles que o cercam. Ou, também pode ser, não atribuir importância nenhuma às amizades, preteridas em prol da manutenção de um julgamento moral que nada acrescenta ao caráter. É uma rigidez estéril, que desconsidera o fato de que somos falíveis e nem sempre sabemos nos conduzir corretamente. Quando isso se dá de maneira deliberada, em plena consciência e com intenção de dolo, normal que nos sintamos magoados e que haja o desejo de afastamento de quem provocou a dor. É puro instinto de sobrevivência. Agora, alimentar esse sentimento de raiva como uma espécie de troféu a ser exibido, francamente, não consigo entender que ganho se pode auferir disso. Não deixa de ser curioso que em muitas situações quem profere essa sentença acima se diz bastante temente a Deus. Como sempre, entre e linguagem e a prática, a distância pode ser incomensurável. 

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A proximidade com o budismo e o estudo de alguns de seus textos basilares despertaram em mim a certeza de que precisamos tudo relativizar, afastando-nos do que nos coloca na defensiva. É praticamente impossível conhecer o que motiva o outro. Não conseguimos alcançá-lo em suas razões. Vemos apenas a ação concreta e aí nossa primeira reação é a de contra-atacar. Conheci seres tão severos consigo e com os demais que sequer se permitiam analisar posteriormente o que os levou a um rompimento. De minha parte, inclino-me a ficar imensamente feliz quando, depois de alguma desavença, um dos dois acena com a bandeira da paz. O que se ganha nestas considerações tardias de uma suposta superioridade? Aqui cabe ao ofensor o exercício da humildade, de refazer a ponte destruída, muitas vezes pela dureza do olhar e pela aspereza de meia dúzia de vereditos. Somos todos mais ou menos impulsivos. O que varia é o grau de contenção de cada um. Considero essa capacidade de rever o que provocou a mágoa algo bem mais religioso do que se debruçar em contrição sobre uma bíblia, por exemplo. Afinal, o que importa é o que interfere na ordem das nossas emoções. Para alcançar este estado de relativa indiferença, precisamos estar cientes da pouca importância que a maioria das coisas têm e quão pequeno é o impacto numa perspectiva de tempo maior.

O esquecimento está na base de muitos preceitos filosóficos. Pó que retornará ao pó – mil vezes e mais mil é preciso repetir isso. Então, para que escurecer os afetos por deslizes que logo parecerão insignificantes? Já me afastei de pessoas queridas por insistir em manter minhas convicções. E tantas delas são provisórias, afinal. Dê-se uma segunda, terceira chance. Você quebrará a espinha dorsal da arrogância.

 
 
 

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