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Opinião22/06/2018 | 13h50Atualizada em 22/06/2018 | 13h50

Gilmar Marcílio: faltar para estar presente

Sei que tudo conspira para o torpor, a sonolência

É do ser humano pensar que tudo sempre estará presente: a energia elétrica a iluminar as noites, a água em abundância a nos permitir demorados banhos, as prateleiras dos supermercados abastecidas. Mas não só: podemos adiar a visita ao amigo que nos chama porque amanhã, claro, amanhã nada mudará e então destinaremos a ele meia hora de nosso exíguo tempo. E o que dizer de quem nos presenteia com seu amor? Na ordem sonolenta dos dias, perdemos a dimensão milagrosa que é ter alguém ao lado que nos escolheu, que cuida de nós. O hábito anestesia o olhar e transforma tudo em realidade ordinária. Ah, mas basta que, em longínquo horizonte, surja a possibilidade de perder e eis que, como num passe de mágica, tudo volta a clarear. 

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Não com a serenidade de quem sabe que isso são presentes efêmeros, mas com o desespero dos que se surpreendem vivendo sua última jornada. Nutro a ideia de que é necessário distanciar-se do que está ao redor e tudo vestir com a roupa do inédito. Não permitir que o encantamento seja recoberto pela pátina da indiferença. Mas que difícil é isso tudo. Ainda mais quando temos a nossa disposição uma variedade de seres e coisas a suprir os desejos.

Há muitos anos sigo o mesmo roteiro para o meu trabalho. Mas a paisagem que se repete e repete nunca me cansa. Consigo descobrir constantemente um elemento novo, algo que tinha deixado escapar no dia anterior. Inauguro incessantemente a possibilidade do espanto. Igualmente, ao entrar em casa, observo quadros, livros e tapetes com a gratidão de quem sabe que estar cercado de beleza é muito mais do que um louvor à estética. É um exercício de depuração do caráter. Não espero a vida de meus cães se extinguirem para nutrir saudades deles. Vejo a sombra do que pode estar ausente e então a consciência salta diante de mim como uma fera faminta. 

Sei que tudo conspira para o torpor, a sonolência. E que é essencial exercitar-se para que a lembrança não seja tardia e o arrependimento o mais inútil dos consolos. Presumo que muito da minha felicidade esteja ligado ao fato de não me esquecer do que parece óbvio. Cometo meus pecados, é certo, mas esses lampejos de lucidez têm se tornado mais constantes na medida em que tudo passa. 

Às vezes me sinto um tanto infantil por continuar apontando o que a tantos parece evidente. Ao acordar, dou-me conta de que meu corpo é capaz de me levar para onde quero e quase choro de alegria. Não tenho restrições alimentares e posso preparar meu almoço com criativa liberdade. Abro portas e janelas para mastigar o sol, sentir a brisa das manhãs, espiar o azul. Meus pulmões aspiram por isso. E quando percebo que este gosto por existir ameaça desaparecer, mil vezes digo: tudo isso passará, dê-se conta de como você é afortunado.

Termino este texto com o tamborilar da chuva no telhado. É domingo, cedo ainda. Abro as cortinas e uma luz difusa vai definindo as formas das paredes. Estou contente porque tudo permanece igual. É por essa novidade que anseio. Que sobre mim permaneça a bênção dessa religião pagã. Minha catedral é o mundo.

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