Gilmar Marcílio: bem velhinho - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião01/06/2018 | 09h00Atualizada em 01/06/2018 | 09h00

Gilmar Marcílio: bem velhinho

De repente, a vida nos passa uma rasteira e já não somos mais donos da nossa mente ou do nosso corpo

Alguns haverão de dizer: Mas é muito cedo para pensar nisso! Direi eu: Não será já um pouco tarde? Falo em ir me preparando para quando ficar velho. Algumas coisas estão sob o nosso controle, outras não. De repente, a vida nos passa uma rasteira e já não somos mais donos da nossa mente ou do nosso corpo. Mas vamos imaginar que o caminho seguirá sem grandes percalços, perdendo aqui e ganhando acolá. E com a possibilidade de permanecer lúcido até o final. Pois se assim o for, com a ajuda dos deuses, do acaso ou do destino – que sabemos nós! - pretendo, na provecta idade, recitar muitos poemas de cor, desviando a atenção das pessoas da minha pele encarquilhada. Serei aquele que lembra sonetos de Ricardo Reis, estrofes de Lorca e Neruda, fragmentos de Bandeira e Quintana e a lírica de Cecília Meireles. 

Não desejo manter nenhum interesse sobre o cartapácio de remédios disponíveis nas farmácias e que tanto chama a atenção dos que se aproximam de seus últimos anos. Quero que se recordem de mim como aquele que soube extrair da vida alguma forma de beleza, sobretudo a que podemos colher através da arte. E em encontros com amigos queridos hei de presenteá-los, também, com trechos de meus romances preferidos. E lhes entregarei excertos que mais parecerão um sonho, uma espécie de realidade adicional que os fará esquecer de suas eventuais agruras.

Espero continuar nutrindo em mim a curiosidade que me move hoje. E que tudo mobilize minha atenção, nesta áspera e fascinante ciranda dentro da qual fomos jogados ao nascer. Não sentirei a tentação de ficar em casa simplesmente porque é mais confortável. Evitarei dar desculpas a quem quero bem. Irei com a alma leve, embora os passos talvez possam ser claudicantes. O mundo continuará sendo o palco dos meus interesses, pois lá fora costumam acontecer os fatos mais marcantes da geografia humana. Saberei também amar os dias frios e chuvosos e tentarei não dizer "mas que tempo feio!" 

Encontrarei companhia para fumegantes cafés e apreciarei igualmente retornar à minha casa. A solidão, o pesadelo recorrente que nos acomete quando nos aproximamos da época das entregas e das suaves desistências, não haverá de ser o mal maior. Quem sabe até seja desejável, na fruição silenciosa dos diálogos comigo mesmo. Que a nossa presença seja almejada, não uma imposição a nossos filhos e netos, feita de culpa e condescendência. E assim será por continuarmos próximos da juventude pois, estranhamente, ela persistirá em nós também. Nem que seja apenas no olhar.

E que eu não diga jamais, sob hipótese alguma: "Ah, mas na minha época era bem melhor do que hoje." Aí, com certeza, terei me tornado irremediavelmente idoso. E será no espírito que isso se evidenciará. Desde já tenho buscado limar meus preconceitos, acolhendo o frescor das novidades. Tentarei ser generoso com os que ocuparão os espaços que, enganosamente, pareciam ser só meus. Manterei as mãos abertas, em sinal de disponibilidade. E, quem sabe, numa manhã do mais puro azul, descobrirei se algo sobrevém à morte. Mas não deixarei de reconhecer o milagre que foi um dia ter existido. 

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