Ciro Fabres: o casarão da Rio Branco - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião 06/06/2018 | 09h00Atualizada em 06/06/2018 | 09h00

Ciro Fabres: o casarão da Rio Branco

Não que uma cidade deva ser imutável. Mas ícones afetivos não deveriam sair do lugar. Nunca

 A gente cruza ali na esquina da Rio Branco com a Olavo Bilac e é difícil adaptar o espírito ao novo cenário, sem o casarão de madeira com o qual nos acostumamos a conviver naquele endereço. Primeiro, que ainda estão ali os escombros da casa recém incendiada, como ferida aberta, fumegante, exposta. Segundo, que houve perda humana e perda canina por detrás, uma comovente história do homem e seu cão, que humanizava o bairro. Terceiro, que não haverá mais a casa. Deixa de haver tudo o que era aquela casa, de estrutura material fragilizada, mas de extraordinário valor simbólico e comunitário, uma referência histórica, afetiva, visual para os moradores da cidade. O caxiense se reconhecia na velha casa de madeira, marcada com a inclinação dos tempos, mas uma casa alegre, viva, que abria o cenário naquela esquina frenética. Aquela casa era familiar aos caxienses. 

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Vale para ouras casas. Esta semana, começou a demolição de mais uma das que havia na Chácara dos Eberle. Ali se manifesta o “conjunto da obra”, ou da obra ao contrário, as casas que se vão ou que são escondidas da comunidade, como a Casa Rosa, que compunha um cenário marcadamente caxiense e que restou assim, sonegada à cidade por detrás das duas torres envidraçadas. 

Meu velho pai matutava sentado à calçada nos fins das tardes de verão no Alegrete: “Como as pessoas derrubam suas casas? Quantas histórias estavam ali guardadas...” Pois é. Humanidades. Não que uma cidade deva ser imutável, está claro. Mas ícones da história da cidade, ícones afetivos, arquitetônicos, urbanos, esses não deveriam sair do lugar. Nunca. Como o casarão de madeira da Rio Branco, a Casa Rosa, o Ópera. Lembro quando cheguei em Caxias, 30 anos atrás, de uma generosa casa na Bento, entre Coronel Flores e Moreira César, que ficava acima da rua. Pois é, se foi, hoje há um edifício comum no lugar. Há prédios que se incorporam à alma e à identidade da cidade. Desses, não deveríamos abrir mão em hipótese nenhuma, mas abrimos sem embaraços de consciência.

 E há também ícones ambientais, como o plátano no meio da rua que havia na Tarquínio Zambelli, lá em Lourdes, a paineira no antigo casarão da Emercor, na Júlio, árvores que compunham um cenário que não tinha preço. Mas se foram. Ficou o vazio, o concreto. Se foi o Calçadão, ícone do espaço para o convívio no coração da cidade. São perdas urbanas, uma atrás da outra. São talhos e retalhos na cidade. Caxias contabiliza perdas gigantescas, mas parece não dar muita importância. Tanto que elas não param de se repetir. 

 
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