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Opinião13/06/2018 | 09h04

Ciro Fabres: Dr. Milton, pediatra

Caxumba, sarampo, catapora, e lá estava o doutor Milton, a transmitir segurança aos pais aflitos

Eu tive um pediatra pra chamar de meu. Acompanhou-me a infância inteira lá no Alegrete. Alguém que conhecia minhas fragilidades de saúde e que, portanto, envolvia-se com seu paciente. Foi um privilégio. 

Claro, os tempos hoje, definitivamente, são outros. Há quem defenda a tese de que tem gente demais no mundo. Assim, não restaria outra saída a não ser imprimir ao exercício da medicina, pediatria inclusive, um modelo de linha de produção: plantões nas clínicas, nos planos de saúde, na rede pública, com jornada bem definida, terminou vai embora, quem sabe para outro plantão. Nada de ir em casa – a não ser o programa Saúde da Família, quando funciona, em caráter preventivo. Mas na doença, esse negócio de pediatra em casa não tem mais lugar. Hoje, são outros métodos, outros modelos, mais eficientes. Era para ser. 

Doutor Milton Monteiro, de saudosa lembrança, fazia pediatria na casa das crianças, a partir da convocação materna. Ele e outros. Meus amigos tinham outros pediatras, especialização que era referência do exercício médico para nós. Caxumba, sarampo, catapora, e lá estava o doutor Milton, de fala mansa, a transmitir segurança aos pais aflitos e ao pequeno debilitado. Comparecia 10 da noite, a hora que fosse chamado. Deixava seus afazeres para ser médico na casa do paciente. Dava transtorno a ele, mas foi uma escolha. Levava uma maleta médica compacta e cumpria o roteiro: estetoscópio aos pulmões, termômetro, um objeto apropriado para examinar a garganta, que nos fazia engasgar, um exame geral da aparência, e lá vinham o diagnóstico e o tratamento. 

Os tempos são outros, já se disse. Sem formular juízo sobre a vocação médica, pois generalizar é injusto, apenas se anota a diferença de modelos. Um sinal é que os pediatras estão sumindo, ou mais difíceis de serem encontrados. É uma especialidade onde a formação está cada vez menor. O envolvimento dá trabalho e atrai pouco. A falta deles no Postão aos finais de semana é uma evidência. Reduziram-se, sinal inequívoco da mudança de perfil, do pediatra e dos médicos de outras especialidades.

Os tempos são outros, e são piores em diversas áreas. Haveria gente demais no mundo, e fica mais difícil também fazer medicina. Parece ter alguma lógica, mas não está proibido subvertê-la. A humanização do atendimento médico, ou de qualquer prestação de serviço, é muito maior com envolvimento, esse envolvimento que dizem não haver mais lugar para ele nos dias de hoje, quando tudo precisa ser rápido. 

Doutor Milton era um pediatra, desses que quase não se encontra mais. Ficou na lembrança. Fez uma escolha, e não deve ter se arrependido. Envolvimento gratifica.

* O jornalista Ciro Fabres escreve às quartas-feiras.

 
 
 

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