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Opinião 07/06/2018 | 08h30Atualizada em 07/06/2018 | 08h30

André Costantin: rachar lenha e morrer

 Em setembro, fim do inverno, terei 50

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

 Em setembro, fim do inverno, terei 50. Meu corpo oscila entre ímpetos juvenis – por montanhas a bordo de uma bike – e as terríveis cobranças do tempo. Nos últimos meses, meu ombro direito foi me apresentando a fatura de um trauma de futebol sofrido com grande alegria lá pelos meus vinte anos. Ando com uma lembrança e uma dor.

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No primeiro frio do ano, busco o machado na oficina e vou apreensivo para os fundos da minha casa, onde está depositada a lenha grossa do ano passado, do desbaste sazonal das árvores de todos os quadrantes do terreno. Tenho tanto amor à Terra que criei um modo de viver associado a uma cidade, sendo também um tanto camponês, inviável e tolo: gosto de bikes e da motosserra que eu manejo; observo o céu, mas não ando sem o relógio no pulso e as previsões do YR; colho cogumelos e pinhões no mato, amanhã compro fumo importado para o meu cachimbo.

Mas a verdade do mundo está ali agora neste toco de sucará. Ajeito o lado certo para cima, procuro o ângulo das fissuras que se abrem nas fibras da madeira, quando ela demonstra estar seca. O fio do machado tem que entrar bem aqui. Vou sem dó de mim; o ombro me acompanha, como nos velhos tempos. Lâmina cravada, o segundo golpe é o da inversão da ferramenta no ar, descendo agora com o olho do machado – a massa vegetal partindo-se em estalos secos de sons estéreos, uma, duas, centenas de vezes. Rachar lenha é abrir memórias.

A mãe entra de madrugada no quarto de quarto de madeira, onde dormíamos em três irmãos. Liga a luz: “vamos para a colônia, o nono morreu”. Alécio ao volante, Variant branca ano 71, chegávamos de manhã cedo em Vila Rica, no interior de Garibaldi. O nono Antônio tinha 84 anos. Costumava rachar a lenha, antes da comida. Depois do almoço, deitava um tempo, guardado pelas velhas fotografias emolduradas no corredor e o tic-tac do pêndulo do relógio da casa velha. Naquele dia, Antônio rachou a lenha, comeu, dormiu, não acordou mais. Ficou nos ares da casa o perfume do fumo do cachimbo do velho Costantin.

A partida do nono formou uma espécie de mitologia da morte lá em casa. Mas Alécio meu pai gastou-se logo na vida, morreu aos 51, quando eu tinha 18 anos, do outro da parece de uma UTI, eu ali sentado em um corredor gelado, sabendo daquilo. Nos dias mais frios do ano, quando me assalta o sentimento do real, acendo meu cachimbo e vou rachar lenha. Um dia – que demore ainda 34 anos – eu também vou explodir o meu coração com o olho do machado, no devaneio das minhas vontades.

 
 
 

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