André Costantin: futebol & sentimento - Cultura e Tendência - Pioneiro

Versão mobile

 

Opinião14/06/2018 | 10h51Atualizada em 14/06/2018 | 10h51

André Costantin: futebol & sentimento

Vou correr na boca de uma noite fria para estar só com o meu coração agitado

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Começa hoje outra Copa do Mundo e como nunca na vida me sinto naquele grafite de uma mulher escorada em um muro, vomitando um jorro de cores no chão do sistema da nação. Nasci e cresci na cultura do futebol, chutando bolas de couro velho em canchas de cimento e campinhos alagadiços do Rio Branco e do kaiser. Sou filho e produto dessa cultura do futebol, mas essa herança me cansa.

Leia mais
André Costantin: rachar lenha e morrer
André Costantin: a casa torta

Vou correr na boca de uma noite fria para estar só com o meu coração agitado. Depois entro no vestiário do clube e a homarada toda discute em volume insano os pormenores do jogo do Caxias ou as psicologias do plantel de um time da capital. Me refugio no vapor de uma sauna, fecho os olhos, mas entra o vozerio da horda futebolística, atravessando as paredes molhadas, com algum manifesto político-bolsonete de entremeio.

O vapor me cai do rosto em suor amargo. Penso se em alguma cápsula do país neste momento, talvez lá em Uruguaiana, em um bar de Pelotas, ou mais ao sul da fronteira em Cabo Polônio, alguns homens estejam falando agora de um quadro ou de uma escultura, um vinho, uma música, um rio, aquela mulher. Nos tornamos um país monotemático e monomaníaco. A palavra esporte foi esvaziada e escravizada no minimundo do futebol. Nestes dias morreu uma grande tenista brasileira, sobre quem nada sabíamos.

Com a bola rolando nos estádios e na bandidagem do “esporte” nacional, a nossa cantada diversidade cultural vai se tornando uma mitologia cada vez mais vaga. Nos globalizamos não para o mundo, mas para dentro, entranhados na ditadura de 30 anos do grotesco locutor global cujos gritos, jargões e ladainhas tornaram-se mais importantes que o discurso de presidentes da República – que já não têm mesmo nada a nos dizer.

No rádio do carro, o jornalista conta com entusiasmo e preciosos detalhes a guerra de ovos e farinha dos garotos da seleção brasileira na concentração da Rússia. Que o craquezynho bilionário atirou um ovo no zagueiro e que este revidou com chantilly. Para mim, ainda são os mesmos meninos que nos envergonharam com aquele 7 x 1 em casa na última Copa e que enxugaram seus ranhos e lágrimas infantis nas mangas de uma camisa amarelo-ouro que já foi símbolo mundial do jogo bonito.

Guardo um folheto turístico do Brasil, de fins dos anos 70. Nele está uma foto de Pelé, com a mística camisa canarinho; uma mancha de suor desenha um coração no peito do rei negro. Ele não sorri, é um artista e um guerreiro em campo. Um sentido que era do futebol, quando o futebol era sentimento.

Leia também:
A uma semana do inverno, cidades da Serra amanhecem com temperaturas negativas nesta quinta
Lei dos Táxis pode ficar mais flexível em Caxias
Filmes com legendas descritivas para surdos é realidade em salas de cinema de Caxias

 
 
 

Veja também

 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros