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Opinião28/06/2018 | 08h00Atualizada em 28/06/2018 | 08h00

André Costantin: arquiteturas de Carlos

Carlos não é só o meu nome renegado. É alguém quase outro

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Nunca deixarei de escrever e pensar sobre você, Carlos. Mesmo em uma crônica, que deveria ser um breve comentário sobre as coisas e o tempo.

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Depois de dias pesados, entro à noite nesta sauna para estarmos apenas nós dois, em silêncio, eu e tu – Carlos (A) Costantin. Hoje, amanhã e depois, os corações e mentes estarão entregues ao nosso herói dos pés de barro da Copa do Mundo, por isso esse bunquer a vapor me parece um bom lugar, Carlos. Eu, que sempre gostei de futebol...

Carlos não é só o meu nome renegado. É alguém quase outro. Mas depois de tanto tempo, juntos e indiferentes, Carlos parece ser o que vai sobrando de mim, superior a mim. Tu ainda podes salvar o que sobrou mim, Carlos?

Na madrugada, Carlos, tive sonhos dos subterrâneos da alma. Caminhava por uma estrada de chão que ia pelo povoado de Barro Preto, costeando ruínas do Rio Canoas, o rio das mais lindas margens, corredeiras e curvas que eu já conheci e percorri, quando eu tinha fôlego, antes do belo rio ser castrado pela barragem monstra de uma hidrelétrica.

Agora, aqui neste sinistro vilarejo, a montante da usina, Carlos, o que era o leito insinuante do Canoas virou um curso sinuoso de águas turvas, cujas correntes vão remexendo as margens barrentas. O rio corre suspenso tal um aqueduto sobre pilares feitos de pedras de basalto por dentro; por fora há cascões de terra e batinga socada, que as pessoas vão escalando e fazendo desmoronar. Uma mulher, no alto de um dos pilares, derruba uma destas pesadas cascas; me olha e diz que isso é necessário.

Contar um sonho é entregar algo muito importante para alguém, Carlos. Quem me ensinou isso foi um outro Carlos, de sobrenome “D”, arquiteto e pensador genial das paisagens culturais brasileiras, que então pegava carona no meu carro para os lados do Jardim Botânico, depois do lançamento de um livro seu, no Rio de Janeiro. Ele contava sobre uma visão dele no espelho, o rosto ensanguentado.

A solidão da sauna acaba no vozerio de homens, cansados de uma partida de futebol. Um deles senta ao meu lado. Demoro um tempo e lembro dele. Ele é Carlos “S”, também arquiteto, com uma honrada biografia na defesa de prédios históricos da cidade, especialmente naqueles anos sinistros da derrubada do Cine Ópera. Há quanto tempo! Carlos também me reconhece, surpreso, por trás desta “barba de Jesus Cristo”. Pois é, Carlos, envelhecemos. E nos colocamos a falar dos velhos ideais abandonados, porque são velhos; da cidade que foi morrendo em nós, arquiteturas, algo de futebol.

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