André Costantin: a gota d'água - Cultura e Tendência - Pioneiro

Versão mobile

 

Opinião21/06/2018 | 13h27Atualizada em 21/06/2018 | 13h27

André Costantin: a gota d'água

A água é algo tão precioso que não poderia ser vendido jamais

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Assim como o homem que há 30 anos foi morar solitário entre pilhas de livros em um barraco no sul de Florianópolis, eu também estou no limite da interferência bestial do Estado sobre a minha vida. O status oficial e uma legião de doutores togados tentam há anos expulsar aquele único morador dos rochedos da minúscula Praia do Beri, pois para o governo ele é um câncer humano naquela paisagem.

Leia mais
André Costantin: futebol & sentimento
André Costantin: rachar lenha e morrer

Eu ando assim, pela gota d'água, ilha, melanoma social, com um mar grosso batendo na minha porta. Preciso tomar alguma providência; talvez adotar uma tática progressiva de desobediência civil. Nestes dias fui buscar a água de beber nas bicas de um poço artesiano do bairro Santa Catarina, uma tradicional fonte de água aberta à população por um cidadão que vende água toda vida em caminhões-pipa.

Alienado que ando das notícias da paróquia e de parte do mundo imediato – eis uma tática de sobrevivência —, chego lá e dou com os burros na água que não há mais: as bicas foram arrancadas. No lugar, um folheto informa que por determinação da secretaria tal do E(x)tado fica o proprietário do poço proibido de fornecer água para as pessoas.

Mais este pedaço da cidade agoniza e morre. Não quero saber mais das justificativas estúpidas, das regrinhas fáceis e da safadeza burocrática das pequenas ou graúdas autoridades do poder, do vereador aos supremos juízes e toda sorte de vampiros palacianos, eleitos ou nomeados, que só nos devoram como os vermes que nos esperam dentro da terra.

O fato é que em um dia triste da vida eu cheguei na fonte de água e a máquina estatal me informou por um bilhete que a água que brota da Terra foi interditada. Eu encontrava ali naquela fonte uma ilha simbólica do humano na cidade. Fazia questão de levar minha filha para ajudar a encher os galões, carregá-los, depois ir abastecendo aos poucos o filtro de casa, cuidando do líquido primordial que nos gerou na aurora dos tempos. Era uma forma de desviar da relação mercantil que nos sufoca e que faz as pessoas comprarem água sem pensar em supermercados, restaurantes e lancherias.

A água é tão preciosa que não poderia ser vendida jamais. Um velho habitante dos campos não entendia como seria possível um copo de água ser vendido. Abstraia um instante da megaestrutura social e imagine: obter um pouco de água, envasilhada em plástico, em troca de uma quantia de dinheiro, não é uma aberração da vida no planeta? Quando migrarmos para Marte ou para os bunkers do pós-mundo, quanto vai custar uma garrafinha de oxigênio?

Leia também:
Lourdes Curra lançou livro sobre a cultura Xavante na Galeria Municipal de Arte Gerd Bornheim
3por4: Garibaldense Lela Rosanelli grava com Duca Leindecker
Agenda: Bento Gonçalves recebe o Ceva Music Festival Pocket Editon no próximo domingo
Patrono da 22ª Feira do Livro de Gramado, Leonid Streliaev quer alavancar o turismo cultural 

 
 
 

Veja também

 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros