Pedro Guerra: Um lugar silencioso - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião25/05/2018 | 15h01Atualizada em 25/05/2018 | 15h01

Pedro Guerra: Um lugar silencioso

Assisti ao filme em Porto Alegre. Fugi da minha cidade natal porque decidi passar um final de semana longe de todos os barulhos possíveis

Pedro Guerra: Um lugar silencioso Antonio Giacomin/reprodução
Foto: Antonio Giacomin / reprodução

Peguei emprestado para o título desta crônica um filme que esteve em cartaz no cinema há pouco tempo. O enredo é simples (talvez nem tanto): em uma fazenda isolada, uma família tem que viver em silêncio absoluto para não ativar a presença de criaturas misteriosas que atacam pela percepção do som. A proposta é tentadora, uma vez que hoje em dia é raro encontrarmos uma situação de silêncio total. Mais do que isso, em um mundo onde todos gritam, poucos são aqueles que escutam.

A empreitada foi proposital: fui assistir ao filme sozinho (em breve escrevo mais sobre isso) e nem pipocas comprei. Quando o filme se encaminhava para a metade, era perceptível que todas as pessoas da sala de cinema estavam receando em tossir, espirrar, cochichar ou até mesmo mastigar as suas pipocas. A imersão foi real — e eu arriscaria a dizer necessária —, quem sabe pelo mesmo motivo que comentei anteriormente: nos desacostumamos a ficar em silêncio.

Faça o teste. Repare ao seu redor, independente de onde você estiver lendo esta crônica. Possivelmente existe uma conversa paralela, um celular está tocando, algum bebê está chorando ou alguém está prestes a interromper a sua leitura para mostrar um vídeo legal do Whatsapp. Eu, por exemplo, estou escrevendo este texto acompanhado de uma sinfonia de máquinas de escavar que realizam uma obra aqui na rua. Quando foi que nos habituamos a viver em meio ao caos?

É por isso que prefiro as noites - quando a cidade dorme, parece que a vida está muda. Exatamente como aquela função mute da televisão, sabe? Alguns dias nós só queremos observar e não falar ou escutar nada. Se escutamos alguma coisa, talvez seja o som do silêncio. De certa forma, é nessas horas que entendemos de que maneira ele pode nos preencher, mesmo existindo aqueles que digam que o silêncio é substantivo do vazio.

Assisti ao filme em Porto Alegre. Fugi da minha cidade natal porque decidi passar um final de semana longe de todos os barulhos possíveis. É certo que a capital se expressa em um volume muito mais alto, mas às vezes nós só precisamos nos distanciar da nossa própria realidade para encontrar o silêncio que procuramos. E, vai por mim: o silêncio pode gritar muito alto.

Ele grita que precisamos ser mais ouvintes do que falantes. E que, assim como no filme, tem certas vezes que ficar em silêncio é questão de  sobrevivência.

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