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Opinião11/05/2018 | 15h00Atualizada em 11/05/2018 | 15h00

Pedro Guerra: Pra você, mãe

 Ser mãe não faz sentido porque tem certas coisas nesse mundo que eu sei que só a minha mãe faria

Pedro Guerra: Pra você, mãe Antonio Giacomin/Reprodução
Foto: Antonio Giacomin / Reprodução

Tive de fazer uma cirurgia para remover as amígdalas. Coisa rápida, simples. Na minha cabeça, a ideia era mobilizar o menor número de pessoas possível e encarar todo o processo da forma mais tranquila (eu odeio a sensação de estar incomodando). Um dia antes do procedimento, fiz questão de confirmar com a minha mãe que ela trabalharia normalmente — afinal, nada poderia ser feito na sala de espera do hospital. Para a minha surpresa, ela falou que já tinha pedido o dia inteiro de folga. Quando eu disse que não fazia sentido e que não tinha necessidade, ela bateu o pé e lançou uma daquelas frases emblemáticas do mundo materno: "mas nenhuma mãe faz sentido".

Lembrei de quando eu era menor e minha mãe caminhava uns dois quilômetros todos os dias só para me ver antes da escola. Sem carro, a empreitada acontecia até mesmo debaixo de chuva, e tenho certeza que qualquer um que questionasse receberia a mesma resposta que recebi dias atrás. Ser mãe não faz sentido porque tem certas coisas neste mundo que eu sei que só a minha mãe faria. Mesmo.

Não é sobre mover o mundo por mim ou sobre sempre dar um jeito de aparar qualquer aresta a fim de me fazer feliz. Afinal, isso é senso comum. Acontece que eu sempre acreditei que eu e minha mãe temos algum tipo de conexão espiritual forte demais. Quando ela está mal, eu automaticamente fico pra baixo — às vezes, antes mesmo de ouvir dela que as coisas não vão muito bem.

Até hoje eu compro briga com a minha mãe por querer que ela desacelere um pouco as coisas. "Mãe, por favor, trabalha menos. Cuida de ti". Mas não adianta. Entra e sai dia e a minha mãe está lá de novo, de pé as cinco e pouco da manhã para ir trabalhar e só voltar quando escurece. Somos diferentes demais nesse quesito — uma profissional de recursos humanos versus um piá que gosta de escrita, inovação e criatividade. E acho que é por isso que nos damos tão bem: eu e a minha mãe vivemos no equilíbrio que até mesmo o amor incondicional exige.

A minha mãe não vai parar de trabalhar, não importa o quanto eu fizer cara feia. Sei que essa é a forma de ela estar tranquila consigo mesma de que o meu futuro está garantido, de que ela fez o máximo por si e de quebra me deu o mundo de presente.

Hoje é o primeiro Dia das Mães que eu não estou ao seu lado. Então, sentada no banco do mesmo café de sempre, lendo o jornal para ver o que o teu filho escreveu, saiba que esta daqui é pra você, mãe. Mesmo com um pouquinho de lágrimas escapando, mesmo sem fazer sentido... Mas com todo o amor do mundo, daqui até a Lua. Ida e volta.

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