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Opinião15/05/2018 | 08h25Atualizada em 15/05/2018 | 08h25

Natalia Borges Polesso: sinto que estou em atraso

As pessoas vêm ao mundo com todos os tipos de vozes e reivindicações

Natalia Borges Polesso

nbpoless@gmail.com

Por Matheusa, Mateus, Itaberli, Stela, Thais, Erik, Patrícia, Dandara... Sinto que essas palavras escritas neste jornal, nesta data, não fazem nada para mudar o que já aconteceu e me arrastam para este atraso: 445 assassinatos em 2017 motivados por homofobia e transfobia. Fora as pessoas que se suicidam, porque negligenciadas, abandonadas, ameaçadas em sua existência.

Sinto que estou imensamente atrasada. Estamos.

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Atrasados em direitos e em deveres, em respeito e cidadania, em ensinar crianças o mais cedo possível, para que se tornem adultos mais conscientes de que o amor acontece de muitos modos distintos e que as pessoas vêm ao mundo em todos os tipos, formas, cores, cabelos, peles, pelos, pensamentos. As pessoas vêm ao mundo com todos os tipos de vozes e reivindicações e elas têm o direito de se expressar.

Por que afinal há tanta agressão, tanta hostilidade, tantos assassinatos movidos por homofobia? Por quê?

Qual o tipo de ignorância coletiva que leva um país a aumentar em 30% as mortes de lésbicas, gays, bissexuais , transexuais, travestis e qualquer ser humana mais queer, mais “estranho”? Qual é o tipo de ignorância coletiva que leva uma população a não enxergar que isso é responsabilidade sua? Sim, a responsabilidade é sua também. É de cada um de nós. Ou você acha que foram 445 coincidências? 445 mortes desconectadas, aleatórias em 2017?

Já passou da hora de parar de rir de velhas piadas. Piadas que envolvem bichinhas, travecas e sapatões. Passou da hora. Você perde a piada apenas, as pessoas estão perdendo a vida, percebem a relação? Já passou da hora de entender que sexualidade não é questão apenas privada. É uma questão pública e política. E se precisamos falar publicamente dela, é por reivindicação de presença. Discursos de ódio vêm sendo legitimados nas figuras de políticos toscos e descolados da realidade. Precisamos mais do que nunca falar de diversidade. Inclusive não podemos calar frente ao projeto nefasto chamado “Escola sem Partido”, que é na verdade um projeto com um partido e uma ideologia bem definidos e que concorda descaradamente com a violência contra nós, lésbicas, trans, gays, ou pessoas que questionam os padrões tacanhos de identidade de gênero que a grande parte das pessoas, por uma ignorância magnífica, teme.

Estamos atrasados, mas não podemos mais estar.




 
 
 

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