Natalia Borges Polesso: ocupação - Cultura e Tendência - Pioneiro

Versão mobile

 

Opinião08/05/2018 | 09h00Atualizada em 08/05/2018 | 09h00

Natalia Borges Polesso: ocupação

Para onde irão as pessoas que perderam tudo?

Natalia Borges Polesso

nbpoless@gmail.com

Alguém liga uma televisão no lugar onde estou. Imagens entrecortadas, destacadas, produzidas. Não tenho mais o costume desses canais. Tudo soa ensaiado. Nesta mesma televisão, de repente, um corte e vejo a pólvora, nítida. No prédio ocupado não havia gente, parece. Só lixo. Resto de coisas. Materiais diversos. Perdemos tudo, ouço. E, em seguida um comentário: perderam o que? Não tinham nada. A condição de miserável desumaniza. Alguns, muitos, não enxergam pessoas ali. O repórter ávido falando das causas: foi o lixo? Foi o cobre? Foi a queima? Foi um casal? Foi a ocupação indevida? Foram os movimentos sociais? Quem foi? Quem podemos culpar, crucificar, qual é o símbolo que esse evento cria? Ao que o bombeiro responde que, naquele momento, está preocupado com o bem estar das pessoas.

Leia mais
Natalia Borges Polesso: monotonia II
Natalia Borges Polesso: monotonia I 

Para onde irão as pessoas que perderam tudo? De onde elas vieram? Não são uma massa única sem identidade e inseparável. Cada uma delas, para onde irá? De onde veio? Que lugar ocupará? Para onde iremos nós? Nós que assistimos ao espetáculo, para onde iremos? Ocupar é uma palavra com tantos meios, com tantas nuances. Você aí já visitou uma ocupação dessas que o noticiário mostrou? Ou está no “deve ser assim”?

Deve ser. E, então o espetáculo: a imagem repetida à exaustão: the falling man brasileiro. O homem que cai. O homem caído. O quase resgate. O desejo de ser salvo e o desejo de salvar aniquilados pela ruína, pela catástrofe às costas de um, à frente de outro. Pela catástrofe anunciada. Da massa ao ícone. O corpo sem identidade. A pessoa. Um homem.

Foi primeiro dia de maio que o prédio desabou. Dia do trabalhador. Mais tarde, um homem fantasiado de presidente iria até lá dizer algo sobre a tragédia. Algo torpe. 

A televisão segue ligada e as imagens vão se sobrepondo, se repetindo em loop, por horas. Os mesmos programas, as receitas, os comerciais, as mesmas pessoas eternamente comentando a mesma notícia, por anos.  Notícia que mais tarde será substituída por uma mais fresca. Justo que seja assim. Só me pergunto onde ficamos nós em nossa capacidade crítica de entender os fatos e, além disso, entender a situação completa. Onde nos posicionamos neste massacre?

 
 
 

Veja também

 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros