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Opinião11/05/2018 | 15h16Atualizada em 11/05/2018 | 15h16

Gilmar Marcílio: a vida é espetacularmente bela

Pense nos seus apegos do passado, em tudo aquilo pelo qual morreria e que hoje te deixa indiferente

Uma maneira sábia de conduzir-se talvez seja a que nos leve ao abandono, ao lento aprendizado que nos faz aceitar as partidas. Sem tanta dor, sem o sentimento trágico do mundo. A vida é espetacularmente bela e sempre nos conecta com seu centro. O instinto de sobrevivência não nos deixa imobilizados, mesmo diante da mais cruel das rupturas: a morte. Pense nos seus apegos do passado, em tudo aquilo pelo qual morreria e que hoje te deixa indiferente. Vistas sob a perspectiva do tempo, todas as coisas são, paradoxalmente, essenciais e inúteis, pois vão passando pelo desgaste natural da nossa vontade. Amores são substituídos, amigos também. Não há leviandade nisso. 

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É apenas o movimento pendular que rege a existência de tudo, de todos. Dia e noite, claro e escuro, inícios e fins. Medito sobre a brevidade e tantas vezes considero essa lei a maior das bênçãos. Esgota-se a alegria, mas também cicatriza o corte que nos impedia de seguir adiante, fixos no sofrimento. Observar o que acontece com certo distanciamento pode nos ensinar a afrouxar as cordas para seguir navegando. Mas não se descobre isso cedo. É como se pintássemos um quadro com sucessivas camadas de cor. Vemos apenas a última, mas todas as demais a sustentam.

É para Montaigne e Sêneca, meus mestres filósofos, que peço ajuda quando sinto as grades da prisão se estreitando. Completamente livres jamais seremos, pois agimos segundo os condicionamentos que vão formando essa espessa armadura denominada personalidade. Mas é dever de cada um observar-se com atenção, aprendendo o que podemos controlar e o que deve seguir o seu curso. Algumas pessoas atravessam a existência quase incólumes; noutras, o infortúnio deixa marcas indeléveis. O que conta, verdadeiramente, é a maneira como reagimos a essas cartas que o destino coloca à nossa frente. 

Lembro com frequência de uma amiga que, recentemente, perdeu o marido aos trinta e oito anos, de um ataque cardíaco. Extremamente unidos, o amor ainda incandescente. Não houve sequer a ocasião para uma palavra final, um aceno, do calor de suas mãos protegendo-os da mais dolorosa das rupturas. Vi-a triste, desolada, mas nunca contaminada pela revolta. Aceita isso como mais um fato, não como uma vingança divina ou uma fatalidade sem explicação. Hoje percebo-a serena e cada vez mais apaixonada por tudo o que a cerca. Reconstruiu-se, não permitindo que o rancor definisse a sua fisionomia.

Saúdo, todos os dias, o sol e a chuva, o corpo saudável que me permite fazer minhas longas caminhadas. A mente lúcida que abriga a memória e vai construindo enredos ao lado de quem amo. Tudo isso pode parecer óbvio, até constrangedoramente simples. Mas é preciso dizê-lo mil vezes para que não mergulhe no esquecimento. A maturidade nos faz ver com menos arrogância. Em breve tudo será devolvido e outros entrarão em cena, contando histórias diversas. Usarão os mesmos pincéis para desenhar na tela em branco. Somos um só e somos todos. Tivemos a nossa chance. Melhor aproveitá-la antes que a tinta seque e não seja mais possível desenhar uma nova paisagem.

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