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Opinião 09/05/2018 | 09h00Atualizada em 09/05/2018 | 09h00

Ciro Fabres: o universo de Barbará

O gaúcho é íntimo da vastidão. Nela se reconhece, nela se identifica, nela busca o alimento para a alma

 Costumo dizer que a Rota Romântica, ali na BR-116, é a paisagem mais bonita do Rio Grande. É gosto pessoal. Afinal, moro aqui perto há décadas, e os plátanos - espécie exótica, vejam bem! – se incorporaram à paisagem regional. Há, porém, um segundo cenário ao lado da Rota Romântica, o cenário do pampa gaúcho. É outra fascinação. Alegrete, minha cidade natal, é uma demarcatória para a paisagem do pampa. Até ali, para quem viaja pela BR-290, a paisagem é quase trivial: grandes extensões, porém com alguma aspereza e menos refino visual. A partir dali, no rumo de Uruguaiana, muda muito: são introduzidos componentes que realçam matizes, detalhes, personagens do pampa: um arroio, um espinilho, um capão isolado, uma tapera, o meneio da cola de um cavalo, um açude, uma revoada. O percurso entre Alegrete e Uruguaiana é um deslumbre do pampa. Um cenário amplo, uma vastidão, de horizontes generosos, pontilhado de detalhes. O gaúcho genuíno é íntimo da vastidão. Nela se reconhece, nela se identifica, nela busca o alimento para a alma quando a explora na lida, solitário, a cavalo. 

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É assim que chego a Mário Barbará, esse compositor que se foi semana passada, que cantou o lugar onde se vive, o jeito como se vive, com tradução poética exata, poderosa. A cultura regional, cada cultura regional, é milagrosa. Barbará, natural de São Borja, ali perto, é íntimo dessa região e não lhe escaparam os detalhes. Quantos detalhes! 

Mário Barbará abriu-me as portas da música gaúcha quando suas melodias, dezenas delas, me foram apresentadas nos Anos 80. Foi presente dos céus, um tesouro. Música gaúcha que muitos, por preconceito ou desinformação, desprezam ou a reduzem apenas aos vanerões. Barbará é um dos principais tradutores - em parcerias abençoadas com Sérgio Napp - desse universo do gaúcho, da alma do gaúcho, da criança alegre que cresceu nesse universo e desbordou para os sonhos da juventude e de toda uma vida em outros ambientes, em ambientes urbanos, degradados, em contraste com os horizontes amplos que curam a alma. 

Um pouco de Barbará, para sintetizar o que a limitação do cronista impede: “Oigalê, eu sou gaúcho / A alma forte pela seiva dos amargos / Nas alegrias bebo lua nas cacimbas / Nas amarguras canha pura em trago largo” (Xote do Sul). “Pitangas colhidas na festa da vida / Carícia de campos cobertos de trigo” (Onde o cantor expõe as razões de seu canto). “É a vida em seu galope / me envolvendo redemoinho / É punhal que se crava lento / E abre em festa meu coração” (Portas do sonho). Obrigado, Barbará. 

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