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Opinião02/05/2018 | 09h00Atualizada em 02/05/2018 | 09h00

Ciro Fabres: desistimos das cidades

A degradação chega com o abandono, quando as pessoas vão embora, ou são afastadas 

Nesta segunda-feira, véspera de feriado, poucas horas antes de o Leão do Imposto de Renda dar por saciado seu apetite voraz, surpreendi-me a observar uma movimentada estação de passageiros do transporte coletivo na zona norte de Porto Alegre, na região conhecida como Triângulo, na Assis Brasil, em avançado estado de deterioração. A estação está em uso diário por milhares de pessoas. Mesmo assim, a deterioração avança, com a cobertura carcomida em vários pontos, a mostrar as entranhas da estrutura, como cicatrizes expostas, um ar de abandono, ambiente sujo, sem cuidado. E a população circulando por ali. População pagadora de impostos, diga-se. Casualmente, era o tal 30 de abril, último dia para o Leão, o que reforçava esse contraste. Os impostos não retornam, ficava evidente, assim como não retornam no SUS, na escola pública, na segurança.

Naquele momento de espera, quedei-me pensativo sobre a degradação urbana das médias e grandes cidades. As cidades têm jeito? Parece que não, cogitei, mas logicamente têm. É preciso querer fazer e ter competência para fazer. Horas depois, pegava fogo e desabava um prédio de 26 andares no centro de São Paulo. No centro, essas regiões degradadas. Era um edifício que um dia fora moderno, quando foi erguido há mais de 50 anos, uma torre espelhada que se degradou. Há 17 anos, ficou vazio, tornou-se alvo de ocupações e atraiu dezenas de famílias para um prédio cuja estrutura corroeu-se com o tempo.

A degradação chega com o abandono, quando as pessoas vão embora, ou são afastadas, onde o poder público negligencia, como na estação Triângulo. Como no antigo prédio do INSS, na Pinheiro Machado, nas ruas e praças malcuidadas, sem atrações à população. Essa é a receita básica da degradação, que pode ser contida, afinal de contas: basta planejamento e ações, ou indução de ações em parceria com a iniciativa privada. 

O centro de Porto Alegre é degradado. O centro de Caxias está em perigoso processo de degradação, ainda em estado menos avançado. Mas que evolui quando as pantográficas da Avenida Júlio estão todas cerradas a partir das 7 e meia da noite, em um lamentável cenário de abandono noturno. Daí até o avanço da degradação, o caminho é curto. E com a degradação urbana, vem a degradação social. As cidades têm jeito, claro. Mas precisa controle sobre o que vai mal, com rédea curta, e querer fazer. Conter a degradação é tarefa de nossos administradores que se dizem gestores. É tarefa também política, pois é preciso fazer escolhas, definir prioridades.

Do jeito que está, parece que desistimos de nossas cidades. Apesar do apetite do Leão.

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