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Opinião23/05/2018 | 09h15Atualizada em 23/05/2018 | 09h16

Ciro Fabres: contos de fadas

Esses contos são obras literárias, ao mesmo tempo repassadas de pai para filho por meio da tradição oral

O que a humanidade tem mais perto de um conto de fadas, e conto de fadas embalado em marketing, é a monarquia britânica. Nada contra os contos de fadas, bem pelo contrário. Eles surgem como oferta de literatura infanto-juvenil, recheados de valores inevitáveis, com os quais temos encontro marcado, mais cedo ou mais tarde, e excitam a imaginação. Só por isso, já se justificam como importantes.

Esses contos são obras literárias, ao mesmo tempo repassadas de pai para filho por meio da tradição oral. Entre as fadas populares estão Sininho e a fada madrinha da Cinderela. Alguns de nós certamente lembraremos delas, e de outras. Os cenários dessas narrativas, com frequência, envolvem castelos e florestas. Com alguma licença ambiental, também pode envolver uma alameda, como se viu no casório do príncipe Harry com a norte-americana Meghan Markle, filha de mãe negra, por onde o casal passou de carruagem após a cerimônia religiosa, até o castelo da família real. E há príncipes, princesas, personagens com características singulares que têm de enfrentar ou superar enredos que, em suas etapas, criam suspense, definem rumos e tiram o fôlego da meninada.

Alguma semelhança com a monarquia britânica é porque ela se aproxima mesmo de um conto de fadas de final feliz, considerando-se como item básico de um final feliz as condições para a vida farta e regalada, no caso, oferecidas pelos súditos à realeza. Diz uma certa compreensão popular que dinheiro compra a felicidade. Se não exatamente a felicidade, financia as melhores condições para uma existência com todos os privilégios e comodidades. E, de vez em quando, um plebeu entra pelos portões da realeza, como no caso de Meghan, uma brecha providencial para exaltar o êxito individual. A monarquia britânica é muito pop, sabe se vender bem e tem fina sensibilidade. O casório de Harry e Meghan constituiu-se em cerimônia de muito bom gosto. O coral gospel de cantores negros foi sublime. E alguns dos integrantes da realeza  envolvem-se com causas sociais. A monarquia tem noção de onde está pisando.

Nada contra os contos de fadas, onde tudo dá certo depois de alguns sobressaltos. Apenas que este da monarquia britânica é um conto de fadas real, e contos de fadas não devem ser reais. Eles deveriam apenas excitar a imaginação. Contos de fadas são preciosos para aliviar as asperezas cotidianas, é certo. Mas, quando se tornam reais, estabelecem um contraste dramático com as multidões que enfrentam agruras, fomes, exílios forçados, falta de oportunidades, guerras, destruição e desigualdades criadas por sistemas econômicos que multiplicam a pobreza e não a corrigem, mas só fazem agravá-la. Tudo tristemente real.

O contraste é perturbador. Ou deveria ser.

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