André Costantin: o Beta amarelo  - Cultura e Tendência - Pioneiro

Versão mobile

 

Opinião 10/05/2018 | 09h00Atualizada em 10/05/2018 | 09h00

André Costantin: o Beta amarelo 

 Ele gosta de se esconder no vão de uma concha

 Antes de fechar a porta da casa e deixá-la aos cães e gatas e à sorte dos ventos que rondam o campanário de Monte Bérico, olho outra vez o peixe beta amarelo, em cima da mesa de jantar. Ele gosta de se esconder no vão de uma concha, no fundo do vidro de biscoitos que lhe serve de morada.

Leia também:  
André Costantin: desgarrados
Bikemanifesto 3: DNA

Tive alguns betas: um azul profundo, outro malhado em tons que meu daltonismo confunde na memória; e um vermelho-sangue que por anos foi meu amigo na adolescência. Mas este, amarelo, cor que eu nunca tinha visto em um beta, não é exatamente meu. Sou o seu tutor.

Na véspera da Páscoa saí a garimpar presentes para as filhas e um sobrinho que gosta de pescar comigo. Entrei por acaso na loja de bichos e plantas que eu visitava quando garoto, com os primeiros dinheiros ganhos de algum trampo no bolso. E agora ali estava eu, o primeiro e o segundo homem juntos, estáticos, reencontrados do tempo, diante do cruel viveiro dos Betta Splendens.

Duas dezenas de betas apartados em cubículos de acrílico. Entre eles, um beta amarelo! Fiquei com ele e com outro, acho que violeta e outras subcores que talvez nem existam. Pelo whats, a filha, que estava na praia, escolheu o amarelo para ela.

Passaram-se alguns dias na rotina das coisas, até que ela se interessasse em ver de perto o presente de Páscoa. – Que lindo! Mergulhou os olhos alguns instantes no universo do seu novo ser. Mas depois anunciou que não o levaria para a casa da cidade; preferia deixá-lo ali comigo. De alguma forma o peixe sofrera algum embargo.

Desde então convivemos eu e o beta amarelo. Ele, com seu esplendor, entre exibições e refúgios de concha, me diz da filha de onze anos que muda rapidamente. A menina que chutava bola e jogava vôlei sem parar na grama, na calçada e já nas quadras, largou tudo e entrou no outro mundo de um quarto escuro em fones de ouvido. De repente, com suas longas pernas, ela não coube mais no banco traseiro do Fusca verde à saída da escola. Vou trocar por um Opala 1973 – brinco eu. Ela me olha, não olhando.

E um sentimento de perda, quase um luto, me acompanha com o ronco do motor. No espelho observo que ela também deixa a primeira mulher que foi para construir sua nova Clarice. Eu vou sendo só um motorista, cuido a estrada, falo pouco. Chego em casa, trato os bichos; vou para o mato dos fundos, onde há um clube abandonado com águas paradas em pias de churrasqueiras. Capturo larvas de mosquito em um vidro para o beta amarelo – ele adora! Ele não tem um nome. Será que ele é amarelo ou laranja?

 
 
 

Veja também

 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros