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Opinião17/05/2018 | 13h27Atualizada em 17/05/2018 | 13h27

André Costantin: novelas & refrigerantes

Você pode comer um pedaço de cada ponta desse salame de alta definição e saberá a história e o gosto do todo

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Você já reparou que as novelas de tevê têm uma estrutura dramática de salame? O primeiro e o último capítulos são os nós de barbante que amarram as extremidades (ou lacres, se o salame metafórico for industrializado). O que vem no meio é conteúdo da "encheção de linguiça". Não há um lado definido para o fim ou começo, exceto pelos créditos finais: novelas e linguiças, experimente ver a última fatia, depois a primeira – também dá certo.

Você pode comer um pedaço de cada ponta desse salame de alta definição e saberá a história e o gosto do todo, tenha ele 20 centímetros, 943 metros ou 180 capítulos. Inclusive aquela pimentinha das cerimônias de casamento e das transas sacanas em faixa de horário familiar – quando as protagonistas engravidam num clique – costumam se aglomerar nas pontas, perto do barbante.

Mas é preciso matar a fome da massa: come-se o salame em rodelas ao longo de meses, sete, nove?, até quando as mocinhas parirem os bebês dos galãs e os bancos, os magazines e as companhias e toda sorte de conglomerados privados e estatais tiverem embutido bilhões de publicidade no megafrigorífico digital.

Algo parecido é o refrigerante, um dos itens de consumo que mais enchem a linguiça publicitária dos horários nobres da tevê – e, por efeito colateral, os balcões das farmácias. Com suas garrafas pets, que foram encompridando mais e mais para emborcar tonelagens de açúcares, os refris são capítulos de novela: um copo na infância, outro na extrema-unção – eles terão contado sempre a mesma história, o mesmo gosto.

Chego em casa à noite, no primeiro frio do ano. Faço um fogo, vou cozinhar pra beber meu vinho. Raul tomava café pra fumar. Ao invés de música, ligo a tevê. Pego o fio da meada, o barbante do salame: começa uma novela, envolta na polêmica da representação dos negros na dramaturgia da tevê. De fato, o naipe de protagonistas novelescos é de um branco total OMO em plena Bahia, incluindo duas crianças fofas de uma marisqueira dos sonhos com sotaque carioca vivendo em uma ilha cabocla, todas elas mais leitosas do que eu. Negros apareceram em duas ou três cenas de passagem, quando se faz necessário ilustrar algum povo amorfo na rua ou nas beiradas do enredo.

Beijo gay, trans-protagonistas, black stars e subversivos cabeludos – tudo é discurso falso, disfarçado de mentalidade evolutiva nesses folhetins televisivos conservadores, que só reforçam os clichês e arcaísmos de um Brasil que exporta soja, havaianas e novelas. Esta carne podre é freeboy, Tony Ramos?

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