André Costantin: desgarrados - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião03/05/2018 | 09h00Atualizada em 03/05/2018 | 09h00

André Costantin: desgarrados

 Sai da calçada e anda na rua, que é o teu lugar, ciclista

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

"Mário acaba de falecer" (whatsapp – 8:03hs, quarta-feira). A mensagem bate na minha janela, um pássaro no vidro. Então fico sentado na beira da cama, com saudade deste outro pedaço da juventude que morre em discos de vinil no fundo de um móvel sem mais sentido para ninguém. Quase ninguém.

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Modelado nas influências musicais da fronteira profunda do Rio Grande do Sul, mais do que isso, natural da missioneira São Borja, Barbará cumpre o destino dos versos de sua música icônica: "Desgarrados". O adeus de Barbará deixa para trás a paisagem do pampa às margens do Rio Uruguai: “Eles se encontram no cais do porto pelas calçadas / Fazem biscates pelos mercados, pelas esquinas / Carregam lixo, vendem revistas, juntam baganas / E são pingentes das avenidas da capital (...) Olhos abertos, o longe é perto, o que vale é o sonho".

Foi em uma Califórnia da Canção, em 1981, em Uruguaiana, que a letra de Sérgio Napp, versos densos de um tempo, encontrou a música de Barbará, em uma explosão estética que marcaria uma geração ao sul do Brasil. "Desgarrados" era nos anos 80 o hino de um desterro, o pampa simbólico esvaziando-se rumo às cidades – em águas mais profundas do que o gauchismo midiático que transbordou dos galpões e tomou conta de tudo e quase todos nestes pagos. 

"Desgarrados" evocava um campo interior, um mar de dentro que todos têm e por vezes navegam; nascia no pampa mas era música urbana; universal e urbaníssima, aliás. Eu que naqueles anos pouco sabia além dos campinhos de futebol do Kaiser, ouvia Barbará nas coletânias da Califórnia rodando no Garrard-Gradiente da sala, enquanto na calçada tocavam os rocks da vanguarda cafona pós-punk das bandas de Porto Alegre – rádio Ipanema FM vibrando nos alto-falantes do Fiat 147 do mano João. Que mistura! 

Nas viagens de ônibus da rapaziada, nas rodas de violão, sempre havia quem puxasse a música do Barbará, meio milongueada, entre outros clássicos nativistas e um "Eu não matei Joana D’arc" do Camisa de Vênus. E cada um de nós – jovens suburbanos ou bichos do mato, da colona Caxias, da pequena Porto Alegre ou da inimaginária Santa Vitória do Palmar – sentia-se igualmente um desgarrado, deixando não sei bem o quê para trás, um nada que era o nosso tudo, migrando todos em direção à nevoa global contemporânea das identidades amorfas desprovidas de sotaques ou apegos telúricos.

Sentado na cama, hoje, eu cantei por dentro: "Sopram ventos desgarrados, carregados de saudade; viram copos, viram mundos, mas o que foi nunca mais será".

 
 
 

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