André Costantin: a casa torta - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião31/05/2018 | 07h00Atualizada em 31/05/2018 | 07h00

André Costantin: a casa torta

Sigo até os escombros daquela casa torta. Vejo dois lambrequins carbonizados na calçada

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Cresci a pé vendo aquela casa torta de madeira na esquina da Rio Branco com a Olavo Bilac. Envelheci em parte, de automóvel, vendo aquela casa antiga – que me era até um consolo vê-la, pensar que eu morreria antes dela para a cidade; e descobrir com o tempo que eram lambrequins de nobre pinheiro aqueles rendados de madeira que pendiam dos beirais e ornavam a janela em ângulo da casa torta.

Mas o fogo lambeu a casa, um homem e seu cão dentro, fogo medonho destes dias ficcionais da nação, como aquele incêndio do Cinema Ópera em uma véspera de Natal. Por isso, além da minha tristeza que não serve a nada e a ninguém, tomei o fato como um sinal destes tempos surreais do Brasil.

Os fantasmas me assaltaram primeiro no sábado à tarde. Eu voltava das trilhas do Samuara com os bikers do grupo Farroupilhão. Pegamos a RS 122 perto do hipódromo, seguindo o perfume dos grostolis da padaria de Forqueta, a tarde caindo. Havia ali uma bolha dos protestos de caminhoneiros, crescendo a cada minuto. Entrando naquele corredor polonês, vejo uma enorme faixa sobre a rodovia, pendurada num guindaste, pedindo intervenção militar.

Começou ali a sessão do meu filme de horror, que depois seguiu por dias no whatsapp, nos buzinaços de caminhões, tratores e jipes saudosos dos ossos da ditadura; e, por infeliz destino, até no trevo de Monte Bérico, caminho de casa, que já é um horror de trânsito pesado e carniças de macumba, mas que ficou ainda pior com um piquete de fascistas tardios e ingênuos idealizadores das fardas mofadas que por sorte os generais não querem mais vestir.

Depois dos grostolis de Forqueta seguimos até Farroupilha, passando por uma próspera favelização nos contornos da viação férrea. Cruzamos por três cavaleiros pilchados. O do meio, com pose de patrão, faca na cintura, chapéu de ginete, levava uma alta taquara com a bandeira do Brasil, esse pano de juras de ordem e progresso que tanto tem servido de roupão de cama aos vampiros e tradicionalistas.

Anteontem, aqui mesmo em São Pelegrino, freio a bike e fico imóvel, sem acreditar nos meus olhos: duas da tarde, desce outro cavaleiro em suave marcha pela contramão da Sinimbu, cruza na faixa dos pedestres, a merda do cavalo andando e caindo tranquilamente daquele vulto satisfeito pela iminência da nova revolução farrapa.

Sigo até os escombros daquela casa torta. Vejo dois lambrequins carbonizados na calçada. Junto eles, minhas mãos pretas. São bonitos, grandes, florais. Fico pensando: em que curva da história nos perdemos?

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