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Opinião 10/04/2018 | 09h00Atualizada em 10/04/2018 | 09h00

Natalia Borges Polesso: com tudo

E a gente com a boca ruim, sem poder comer nem beber nada, um dia antes do outro

Natalia Borges Polesso

nbpoless@gmail.com

 É uma fome capital. Vontade de abocanhar o bolo todo, até sair pelos lados. Não bem desejo, é um querer empanturrar-se pra ver se o vazio diminui. Eu queria mesmo fazer um doce bem doce, um doce com chocolate, com merengue, leite condensado, chocolate branco, com banana, caramelo, cobertura midiática, com supremo, com tudo.

Mas preciso fazer dieta.

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Porque de uns tempos para cá, tenho estado doente. Meu estômago parece um lago ácido, como os dos filmes de fantasia ou ficção científica. Uma poça dentro da qual boiam restos mortais de quaisquer coisas que engoli a seco. O intestino, dizem que nosso segundo cérebro, se revolta, se torce, se inflama a ponto de querer jogar tudo ali para o apêndice, porque não dá mais pra voltar, mas passa. Tudo passa, literalmente, a merda passa. A dor segue um pouco mais, antes e depois da crise, antes e depois do evento, mas passa, dizem que passa. Fica um pouco da ardência. E do amargor. Alguns dizem: boca ruim. Pois acordei hoje com a boca ruim mesmo, porque hoje ainda é semana passada. E semana que vem vai ser a retrasada, assim por diante. E a gente com a boca ruim, sem poder comer nem beber nada, um dia antes do outro. Um amargor que fica ali nos cantinhos dos lábios, em forma de baba branca e seca.

E enquanto isso, tenho fome.

Não é para perder peso, é para não sobrecarregar o aparelho digestivo, que vem tentando arduamente digerir aquilo que engoli forçada, às vezes, sem pensar mesmo, dá um cansaço pensar em tudo, então confesso que algumas coisas eu apenas engoli. Com sal de fruta, com magnésia, chá de espinheira santa, com marcela, com tudo.

Agora, eu não sei o que vai curar, se tem cura mesmo, pode ser que eu tenha que passar a viver com a boca ruim, com entalados diários na goela e, talvez, eu tenha que me conformar que o que não entala na goela, entala mais adiante, depois das curvas todas do intestino. E tomar o que lá? Muita água, suponho.

Com tudo isso, nada me tira a vontade amputada de doce, mas não esses doces com nomes estrangeiros como cupcake, éclair, marshmallow, nugat, quero um doce que me faça abrir a boca para dizer seu nome, um doce com nome velho, que não se usa mais servir. Um doce cujo gosto, a gente esqueceu, algo como olho-de-sogra, mangada ou democracia. 

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