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Opinião 06/04/2018 | 11h42Atualizada em 06/04/2018 | 11h42

Gilmar Marcílio: zoom! 

Sugiro também a leitura de um interessante livro chamado Zoom

 Há um programa na TV a cabo chamado O mundo visto de cima. Gosto de assisti-lo porque ele coloca nossa percepção do espaço físico numa outra perspectiva. O que parecia grande, parece pequeno. O que parecia importante, revela-se apenas um detalhe dentro de um conjunto maior. Nos momentos em que não consigo domar convenientemente meu ego, lembro invariavelmente de algumas cenas e com impressionante rapidez me sinto reconduzido a minha verdadeira dimensão. Eu, um entre muitos outros – é sempre bom lembrar dessa velha fórmula de vida quando, pelas razões mais diversas, nos sentimos assaltados pela certeza de nossa importância. Não o somos. Cada um de nós é somente uma peça substituível numa engrenagem praticamente infinita. Nosso desaparecimento causará comoção provisória naqueles que nos amam e por um tempo determinado. Depois, tudo seguirá o seu curso e, com sorte, permaneceremos na lembrança por uma ou duas gerações que nos sucederem. É conveniente ter isso em mente numa época em que as pessoas andam cada vez mais exibidas. Façanhas domésticas ganham uma dimensão épica. Está aí o Facebook que não me deixa mentir.

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Sugiro também a leitura de um interessante livro chamado Zoom, do escritor Istvan Banyai. Sem texto, composto apenas de imagens. Começa focando a íris de um olho, um rosto, o corpo, o quarto em que esta pessoa está, a casa, a rua, o bairro, a cidade, o país, o planeta e, finalmente, o universo. Ou seja, o que inicialmente pode causar encantamento pela singularidade, logo se revela apenas um insignificante ponto, um cisco cósmico que se perde na poeira dos tempos. Nada custa lembrar disso. Não com negatividade, pois cada um carrega a secreta certeza de que sua existência é deveras relevante. Para nós, somos tudo. E cremos que para os outros também. Lembra quando se apaixonou pela última vez? Impossível fazer um zoom. Todo movimento se dá em sentido contrário. Em estado de relativa normalidade, considere a possibilidade de afastar a lupa para não correr o risco de ampliar o valor e a grandeza de si próprio. Amar a si e aos demais é um saudável exercício de sobrevivência. Aprendemos a nos cuidar, a valorizar o que somos e temos. Mas, por favor, sem exageros. Contenha-se e aprenda a postar menos, por exemplo. Claro, você acha que, agindo assim, está enriquecendo tudo e todos ao seu redor. É o contrário: está ajudando a tornar tudo mais banal. Preserve-se

Se aprecia ampliar a própria imagem, faça de dentro para fora. Talvez isso só irá despertar interesse em você, mas os ganhos em termos de crescimento interior serão bem mais significativos. Nenhuma parte pode ser maior que o todo e, como num caleidoscópio, acaba se diluindo no conjunto da obra. Desaparecendo. Comece a se afastar. A ouvir a respiração dos outros. Visto de longe ou por ângulos diversos, o cenário é sempre mais bonito.

 
 
 

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