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Opinião11/04/2018 | 09h00Atualizada em 11/04/2018 | 09h00

Ciro Fabres: guerra urbana 

A cultura do punitivismo extrapola a forma, e a forma é a previsão legal, é a regra do jogo

 A cultura do punitivismo, aquela da punição a qualquer custo, já extrapolou, e muito, o combate à impunidade. E está a causar efeitos devastadores. Combate à impunidade é justo, necessário e essencial, na devida forma. Para que não fique a sensação de que se pode fazer de tudo, atropelar o respeito ao outro, que “não dá nada”. Em reação, se estabelece a cultura do punitivismo, mas ela extrapola a forma, e a forma é a previsão legal, é a regra do jogo. E regra do jogo deve ser algo sagrado. Ou deveria. 

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Então o punitivismo descamba para a agressividade, a intolerância, o justiçamento. Esse é o ambiente em que estamos, que não leva a lugar nenhum, como resposta a outro ambiente terrível, o do “não dá nada”. E essas duas culturas, ainda por cima, coexistem simultaneamente. 

Diga-se que a cultura do punitivismo surge a partir de uma boa intenção. Percebe-se o atropelo às regras de convivência, a esperteza para se dar bem em detrimento do coletivo, ou de direitos individuais justapostos, colados, porque senso coletivo existe muito pouco entre nós. Então surge a reação, que pretende o corretivo, mas que logo perdeu a medida, por descrença e falta de interesse em participar na busca por soluções. 

O resultado é catastrófico, e as instituições, que deveriam fazer a mediação, são fracas ou corruptas. Surgem intolerâncias políticas e de toda ordem, a realimentar nosso ambiente de agressividade. O resultado se vê nos ambientes públicos: nas ruas e nas redes sociais. A rede social multiplica os efeitos, mas a rua é a vida real, onde essa agressividade e o vale-tudo desembocam. 

As desavenças políticas mal encaminhadas são um sintoma, mas não só elas. Agora no fim de semana, houve cinco assassinatos na região. Essas mortes sintetizam enfrentamentos, grupos rivais, facções. Uma menina de 18 anos morreu na frente de uma casa noturna, em Bento. O proprietário do estabelecimento traduziu: “nas ruas, há uma guerra urbana”. Que o diga o Rio de Janeiro. É onde tudo desemboca, e muitas balas costumam se extraviar. Ao mesmo tempo, a rua é solução, o espaço público, o espaço de convívio, o exercício da boa convivência. 

É preciso desconstruir esse desentendimento geral, desmontar esse cenário. O cada um por si em vigor, ver o outro com desconfiança, como inimigo, obviamente, não leva a lugar nenhum. Precisamos de quem exercita a serenidade, pré-requisito para alcançar um pouco de lucidez na leitura da realidade, nas relações, no exercício diário na vida real. Precisamos de um exército deles, gente de boa vontade, que quer construir saídas, e não destruir os outros. 

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