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Opinião05/04/2018 | 09h00Atualizada em 05/04/2018 | 09h00

André Costantin: telhas francesas 

Um habeas corpus no supremo tribunal e as frases insidiosas de um general da nação atravessam a tela do notebook

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

 Uma alienação esquizofrênica sobre a nação, mas sobretudo paroquiana, tem sido a minha tática de sobrevivência nestes tempos de guerra fria e microcefalia política. Por isso muito têm me interessado coisas inúteis aos olhos da massa humana, traços que eu – ex-guerrilheiro de pequenas causas anacrônicas – sismo ver fundamentais para o equilíbrio do Universo.

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As telhas francesas, por exemplo. Há dias medito sobre elas. Essas telhas simples de barro, mosaicos sóbrios das casas que resistem ao anoitecer arquitetônico da cidade. Filho de carpinteiro, aprendi que havia a telha francesa e o zinco, os dois materiais que Alécio lidava quando empreendia a obra de um telhado. O famigerado brasilit surgiria depois – marca que virou sinônimo das telhas de fibrocimento.

Um habeas corpus no supremo tribunal e as frases insidiosas de um general da nação atravessam a tela do notebook, onde digito este texto. Então sigo flutuando alienado pelos cobertos das casas. A telha francesa, além de trazer no nome a imaginação dos telhados de Paris, cobrindo com leveza até os mais simples galpões rurais da imigração, era uma telha inteligente, puro design e funcionalidade.

Saber e arte das olarias, as telhas francesas davam às coberturas das moradas, armazéns, paióis ou palácios, os tons da terra de cada lugar: mais escuras na serra, nuances ferruginosas nas planuras dos alemães e Porto Alegre, alaranjadas no litoral. Encaixadas, entrelaçadas, em caimentos e panos de coberturas bem feitas, eram peças de uma vanguarda ambiental. Térmicas e acústicas pela natureza do barro, duráveis, as telhas de barro deixam respirar as madeiras do sótão da minha casa.

Hoje, arquitetos e seus clientes ricos criam mansões insustentáveis com telhados verdes. Enfiam tonelagens de concreto, ferro e mantas asfálticas para ostentar um teto de capim verde que na real é a cobertura de vidro de um frágil discurso ecológico. Entro no meu condomínio, em área até pouco tempo rural, e vejo o domínio absoluto das telhas de cimento, colorizadas, como se o barro – matéria primordial que nos fez humanos, espécie-habitat – fosse um pecado contemporâneo.

Agora caminho por São Pelegrino. Um outdoor estampa a máscara de Bolsonaro e bobagens escritas. Então abstraio ainda mais nas telhas francesas. Elas eram talvez expressão estética de um país que tinha alguma elegância e sentido de futuro lá pela metade do século XX. Diabos: penso nas telhas, mas vem a realidade imediata me atormentar. Vai Brasil, dá-lhe brasilit.

 
 
 

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