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Opinião 12/04/2018 | 09h00Atualizada em 12/04/2018 | 09h00

André Costantin: bikemanifesto

¿Pra andar de bicicleta, tem que ter moral, tem que ter moral¿, ensina o mantra do Plá, músico e guru das ruas de Curitiba.

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

 Ajusto o capacete e vou para as trincheiras. Que os tempos são de guerra nesta cidade. Saio pelo portão do condomínio, mochila, roupas compridas, alguma ferramenta se precisar; me benzo na frente da capela de Monte Bérico, que la Madona e todos os santos guiem e guardem este biker ateu e místico.

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Compro cinco brigas por dia no trânsito, abro o espaço que me cabe nas ruas, mato ou morro na Jacob Luchesi, recuo quando o caminhão vem por cima, vocifero na Matteo Gianella, saúdo Dante no inferno da Igreja de São Pelegrino. Miro enfim, logo adiante, o porto seguro do antigo Moinho Progresso, endereço do meu ofício.

Eu dormi um sono ciclístico de 30 anos. Fui nesses anos um ermitão de bike pelos matos e campos, apaixonado pela crosta da Terra, devotado às trilhas altimétricas dos sábados no Farroupilhão – um folclórico e guerreiro grupo de all mountain de Farroupilha e do planeta. Mas agora volto a ser também um ciclista urbano, como fazia no tempo em que saia do Kaiser e ia até o centro da cidade, ao trabalho. Era um tempo de paralelepípedos nas lombas e lançantes da Rio Branco e da Sinimbu.

Então eu era um jovem ciclista. Com um mundo e um Brasil pela frente, nada poderia deter as rodas da minha primeira bike de ciclismo: uma racing de terceira mão comprada em Porto Alegre, garimpada nos anúncios classificados da Zero Hora. Depois de uns dias escondida no porão de casa, sem mãe ou pai saberem, desmontei a magrela, decifrei cada componente: ela tinha um câmbio dianteiro da marca Zeus e os fechos de cubo de roda Campagnollo, preciosismos made in Itally – era um sonho aquela maquineta. Dei-lhe uma nova roupagem. Vermelho era a cor daquela minha juventude.

E do meu trabalho, na antiga Vídeo Color Paganin, quando a tarde era boa, eu saia e mandava um pedal até Flores da Cunha pela RS 122, visitava a Terra do Galo e voltava para a Pérola das Colônias no fim do dia. Eram os anos 80; aquela loucura tinha cabimento no meu devaneio juvenil. Agora, na sala de estar do meu outono, juízo emoldurado na parede, eu acordo do meu sono ciclístico; coração no asfalto, constato com tristeza que a mentalidade de Caxias andou para trás nestes longos 30 anos. Vejo o sentido de ofensa e afronta – primariamente freudianas – que a média geral dos motoristas expressa quando uma bike ousa flutuar no trânsito daqui.

E daí? Faço a minha bikerrevolução. “Pra andar de bicicleta, tem que ter moral, tem que ter moral”, ensina o mantra do Plá, músico e guru das ruas de Curitiba.

 
 
 

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