Gilmar Marcílio: Irmã Margarida, Irmã Carmen - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião09/03/2018 | 09h50Atualizada em 09/03/2018 | 09h50

Gilmar Marcílio: Irmã Margarida, Irmã Carmen

Era uma nobreza para a alma estar ao lado delas

 Tenho lembrado, como um enlevo poético nessa nossa vida cheia de afazeres, de duas amigas muito queridas com as quais partilhei a minha juventude. Margarida e Carmen, freiras que consagraram cada momento de sua existência para ajudar os outros. Todo encontro era um exercício de reflexão, a lembrança da exata medida do nosso egoísmo, preocupados apenas com a ordem comezinha das coisas. Era uma nobreza para a alma estar ao lado delas. Ouvir as histórias de dor e redenção, o tempo que dedicavam aos pobres das comunidades que recebiam seus cuidados. Sempre humildes, sem nenhum tipo de vaidade, certas de que estavam fazendo o que deveria ser a causa de todos. Já entrando na idade madura e com alguns problemas físicos, deixavam o conforto de suas casas para se entregar a este trabalho que lhes exigia muito. A palavra cansaço nunca esteve presente, nem em palavras e muito menos na expressão de seus rostos. Praticavam o Evangelho na mais estrita concepção do termo. Guerreiras de Deus, como se definiam. Por que estou usando todos os verbos no passado? Tudo o que fizeram ainda perpassa a realidade que hoje vivo. Sua presença forte e etérea me marcou indelevelmente. Permaneço em dívida, pois recebi o ensinamento de que a queixa faz parte do vocabulário dos preguiçosos, dos que aderem às causas somente com a linguagem. Elas, mulheres de ação e coragem, estavam dispostas a enfrentar tudo, inclusive as limitações que os anos foram deitando em seus corpos.

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É possível que as esteja recordando intensamente nesta tarde aquietada de março por estar assistindo a uma série que tem me emocionado. Chama-se Call the Midwife – retrato sublime da vida das parteiras inglesas na década de cinquenta. Moças idealistas que vão morar num convento e trabalham incessantemente trazendo crianças ao mundo. A delicadeza daqueles relacionamentos, a bondade atravessando os atos mais corriqueiros... Isso me remeteu a uma época em que tudo parecia carregado de intenções sublimes. Pode ser uma visão idealizada, mas creio que se esses exemplos nos impulsionassem a ter atitudes mais altruístas, estaríamos compondo nosso mundo de maneira menos selvagem, menos agressiva. Não sei se nos tornamos seres humanos mais insensíveis, resisto a esse pensamento. Mas é certo que nos contentamos em espiar a dor que nos cerca ao invés de nos comprometermos em busca de soluções. Margarida e Carmen e todas aquelas jovens mudaram a fisionomia do espaço que ocuparam. Agarravam tudo com tenacidade, mesmo sentindo medo por saberem-se em terreno tantas vezes perigoso. A elas e tantos mais se pode destinar a palavra heroísmo. Sobretudo por estar acoplado ao gosto pelo anonimato.

Vontade de voltar a abraçar essas doces criaturas. E de ser capaz de copiar seu exemplo. Que bela estatura para se almejar! Pois tudo ficaria melhor se houvesse em nós mais vigor, disposição e entrega. Menos discurso e crítica. É com o corpo que podemos ser agentes de salvação.

 
 
 

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