Ciro Fabres: o relho - Cultura e Tendência - Pioneiro

Versão mobile

 

Opinião 28/03/2018 | 09h00Atualizada em 28/03/2018 | 09h00

Ciro Fabres: o relho

Muita gente está está exultante com o jeito gaúcho de ser, que maneja relhos para enquadrar diferenças

 Falar sobre o relho é algo que está contaminado pelo ambiente político. Alguém manuseou o relho para agredir, para submeter, para subjugar. Existe uma foto reveladora, uma foto definidora, sem contestação. Um dos lados manuseou o relho, e houve quem manuseasse arma, pedra e ovo, assim como o outro lado já manejou a foice. Não pode, a não ser na excepcionalidade de um recurso extremo como legítima defesa. Pois não importa a contaminação política. É preciso falar sobre o relho, ou o rebenque, variação do relho recuperada pela fala da senadora Ana Amélia. Relho e rebenque são apetrechos empregados, em tese, para açoitar animais. Também em tese, com alguma finalidade relacionada às lides campeiras. No tempo da escravidão, mas não só naquele tempo, eram usados para açoitar pessoas. Apesar da finalidade que pode ser desvirtuada sem muito drama de consciência, são elementos importantes de nossa cultura regional, quando atrelados ao universo do trabalho. Pois foram alçados aqui no Estado à condição de argumento político. Estarrecedor, mas há muita gente orgulhosa da destreza de quem manejou o relho para atacar alguém, como mostra a foto que eternizou a performance em pleno março de 2018, pela singela razão de que o outro pensa diferente. Para sufocar diferenças, o relho. Eis a materialização do relho como argumento político. 

Leia mais:
Ciro Fabres: o caminho de Naiara
Ciro Fabres: respeitar Marielle é reconhecer a essência de sua luta

Francamente. E muita gente está exultante com o jeito gaúcho de ser, que maneja relhos contra oponentes para enquadrar diferenças. Não é mais possível levar livre determinadas condutas. Passou dos limites. Semana passada, por conta dos desdobramentos da lamentável morte da pequena Naiara, popularizou-se na cidade a versão de que integrantes da Comissão de Direitos Humanos da Câmara haviam procurado a polícia para supostamente proteger o autor confesso do estupro da menina, que também foi morta. Uma mentira, divulgada para hostilizar direitos humanos. 

Há muito tempo convivemos com a tese de que direitos humanos defendem bandidos. Ela até surge de uma angústia de punição, mas é totalmente torta, e deixamos que prosperasse sem reação. Agora está descontrolada. Tomara quem a propaga nunca precise do apoio de um movimento de direitos humanos, quando o direito de cada um é atropelado pelo poder constituído. Se um dia precisar, vai, finalmente, entender na marra o conceito que hoje não se esforça para compreender e, pelo contrário, hostiliza algo que já foi transformado em declaração universal de toda a humanidade no longínquo 1948. Pois 70 anos depois, direitos humanos ainda é palavrão no Brasil. Revelador sobre quem somos. Relho, obviamente, não é argumento político. Incrivelmente, tem muito gaúcho que acredita que é, sem nenhum constrangimento. Como chegamos até aqui? 

 
 
 

Veja também

 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros