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Opinião 07/03/2018 | 09h27Atualizada em 07/03/2018 | 09h27

Ciro Fabres: a pessoa inteira 

Hoje, já separamos o gestor empresarial e a pessoa, sabemos dosá-los em uma mesma figura

Houve um tempo em que havia um debate acirrado, no ambiente político, em torno de ideias, compreensões e também os efeitos práticos daquilo que era sintetizado à época pela expressão "luta de classes". O tema dava calafrios em muita gente. Ainda eram os ecos da concepção que havia sido sistematizada especialmente por Karl Marx, filósofo alemão, no livro O Capital, e que reverberava no que era chamado de Guerra Fria, uma tensão permanente em torno de modelos econômicos que colocava em polos opostos o Capitalismo e o Comunismo, os Estados Unidos de um lado e os países da União Soviética do outro. 

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Toda essa tensão planetária era transposta para as diversas realidades regionais, no Brasil também, onde havia farta representação de um lado e de outro. Assim vivíamos em conflito de ideias e de derivações práticas, algumas delas terríveis, como luta armada, perseguições e torturas. 

Essa discussão era extremada e levava tudo de roldão. A ponto de não se fazer diferença entre as relações de produção, que estavam no centro do debate, e as pessoas envolvidas com a produção. Assim é que, anos atrás, ser empresário assumia sumariamente a pecha de "explorador", mesmo que gerasse empregos. Este debate tornou-se contaminado, prejudicando o diagnóstico mais preciso da realidade. Ainda bem que, neste caso, evoluímos.

Hoje, as relações de produção ainda estão em questão, está aí a polêmica reforma trabalhista, mas já separamos o gestor empresarial, o administrador e a pessoa, o ser humano, ou sabemos percebê-los, dosá-los e combiná-los melhor em uma mesma figura. Antes, para certa visão de mundo, ser empresário era pecado quase automático, hoje evoluímos para enxergar nele uma pessoa, com suas contradições, inseguranças e contribuições. Bem melhor assim. 

Seu Raul teve sua visão própria de como se dão as relações de produção. E teve êxito total em sua atividade empresarial. Ao mesmo tempo, ao seu modo, foi uma pessoa preocupada com o outro, com as famílias, com as crianças, com a comunidade. Tinha sua generosidade, a forma de ver as coisas. Pode-se discordar das decisões que envolvem patrões e empregados, e isso é natural, mas hoje já olhamos para a pessoa inteira. Assim sendo, não há como não identificar na trajetória de seu Raul uma existência generosa, e, dessa forma, reconhecê-la e valorizá-la. 

O ser humano é complexo, rico, composto por muitas facetas que se interpenetram, interagindo uma na outra, e assim se compõe uma trajetória. A de seu Raul também foi assim, e foi extraordinária. Hoje, muitos de nós sabemos ver melhor do que antes. Assim precisa ser a vida. Obrigado por tudo, seu Raul.

 
 
 

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