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Opinião06/03/2018 | 07h23

André Costantin: o samurai da ilha

Cinco passos nos separavam, na chuva. Arrisquei um primeiro gesto para me explicar

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Aquele vulto veio pelos vidros do carro, já no mosaico dos pingos da chuva que se anunciava. Ele caminhava no entorno dos anéis rodoviários da ponte de Florianópolis. De relance, parecia um samurai de rua. Alguém desce do carro, no meio da tranqueira, e vai atrás dele – estávamos à procura de personagens para um documentário sobre pessoas que vivem nas ruas e das ruas, narrativa que depois ganharia o título Minha sina, cruzando histórias de trecheiros, andantes e moradores de rua das cidades do sul do Brasil.

Trecheiros – aprendi no garimpo por ruas e estradas – são os caminhantes que vivem nas rodovias, varando mapas em trechos pelos quatro ventos, entre pousos e abrigos incertos, indo pelos acostamentos. Os trecheiros se opõem aos pardais, que assim eles chamam os que vivem nas ruas e praças das cidades, feito passarinhos urbanos, sem alçar viagem, catando e comendo coisas do céu e de mãos alheias.

Mas, lá se ia o samurai de Florianópolis: abandono o volante do carro e também vou atrás dele. Chegando perto, vejo suas roupas de mil sobreposições velhas e gastas, amarradas com muitos nós cruzados no peito e na cintura, ideogramas de trapos pelo corpo. Levava um saco nas costas. Quando ele se vira, estaqueamos, nós outros: ele tinha as feições de um nissei algo acaboclado. Corpo ereto, de aparência ágil.

Jogo todas as minhas fichas de macaco velho farejador de histórias que aquele cara vinha de longe; escolhera a urbe da Ilha da Magia para se refugiar do seu próprio mundo, epopeia existencial que eu não viria conhecer. Isso eu pude ver nos olhos dele.

Cinco passos nos separavam, na chuva. Arrisquei um primeiro gesto para me explicar. Ele ergueu a mão direita, flutuando no ar não uma ameaça, mas o desenho de um limite, uma fronteira; resmungou algo como quem não falasse o português. Seu olhar pedia para que o deixassem em paz no seu retiro, longe muito longe das pequenas aflições e esperanças mundanas que nos conduzem todo o dia para a morte, como os carros que lentamente iam se espremendo no gargalo da ponte, na travessia da ilha ao continente.

Então o caminhante fez um sinal invisível, ao que eu calei a minha boca antes de falar – e os cinco passos de silêncio duraram alguns segundos, quando ele soube exatamente quem eu era, e, ele, para mim, tornava-se um antigo conhecido, samurai deserdado de um oriente terceiro-mundista para sempre ali na ponte da Ilha de Santa Catarina. Logo foram seis, dez passos de distância, até um longe de adeus.

 
 
 

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