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Opinião01/03/2018 | 07h25Atualizada em 01/03/2018 | 07h25

André Costantin: meus velhos 

Olho em volta e vejo os arquivos de centenas de fitas de vídeo de vários formatos

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

 Certa noite estava eu bebendo uísque no sofá de uma casa antiga, em uma festa discreta de pouca gente que eu mal conhecia. Do corredor vinha uma voz familiar. Era Chico Buarque. Ele pediu um copo também; ficamos tomando aquele Jim Beam, falando do tempo e das coisas. Tempos atrás estive tomando um vinho branco com Vinicius, este sim, um velho de raiz. Muito ele admirava a cor e o aroma daquele moscato giallo, bem gelado – um vinho total bossa nova. Dava para ver as manchas de dedos nas lentes grossas dos óculos do Vinicius; sentir o seu cheiro de armário velho meio doce de madeira.

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Eu sonho com velhos e monstros. Raramente as ninfas me visitam nos meus retiros noturnos pelas asas de Morfeu, no sótão de casa, onde eu, decerto nascido velho também, durmo guardado pelas madeiras de pinheiro.

Carrego centenas de velhos comigo, por força do meu ofício. Mergulhado há dias na montagem de um filme sobre o carnaval da fronteira, reencontro na ilha de edição as cenas dos meus personagens; muitos que já partiram. Ali estão a passista Chiquinha, sambando aos 65 anos de idade; o baiano Veludo, dos fuzileiros navais que levaram o samba quente carioca para o pampa – ele entoa o agogô, cumpre o derradeiro desfile na avenida de Uruguaiana, capturado pela filmadora.

Olho em volta e vejo os arquivos de centenas de fitas de vídeo de vários formatos, pilhas e pilhas de hard disks com os quais não sei lidar direito. Ouço neles as vozes dos muitos velhos meus, preciosos acervos humanos que eu conheci e registrei ao longo da vida, desde as nossas colônias, das barrancas do Rio Uruguai até as ilhas dos Açores; nos mais profundos lugares deste sul. Consigo ver o velho Carlo Caporal, tragando um cigarro com a alma, olhando longamente para a imagem de uma pietá esculpida na rocha de uma montanha da Lessínia. Vejo nona Rosa Martelo, a última falante do idioma Cimbro ao sul do mundo; João Maria, Bertulina, Tomásia, das terras da Invernada dos Negros; Adrian Cowell, com seu vidro de single malt irlandês no bolso, que inventou de morrer antes de me contar toda a sua história de cineasta e sertanista amazônico.

E se eu também morrer amanhã? – caro amigo Daniel Herrera, parceiro de viagens e de muitas e longas jornadas em ilhas de edição. Como ficarão os meus velhos, que me contaram os segredos do universo e os mistérios da vida? Assim como eles e o mendigo cego da calçada, da canção de Raul, eu nasci há dez mil anos atrás. Sinto-me um museu de memórias, sem endereço ou permanência.

 
 
 

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