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Opinião 29/03/2018 | 15h01Atualizada em 29/03/2018 | 15h01

André Costantin: depressão central 

 A estrada molhada apagava a visão cada vez mais distante dos contrafortes da serra do sudoeste

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

 Tudo isso aconteceu ontem, um dia que não terá fim. Saímos de Santa Cruz do Sul pela manhã – a cidade de origem alemã erguida sobre a cultura do tabaco. Nosso destino era um ponto nebuloso na tela do smartfone, indicando uma estação ferroviária no interior de Rio Pardo, paisagens do Jacuí onde em tempos antigos – anteriores ao mapa da nação – cruzava a fronteira oscilante e sangrenta entre as Américas hispânica e portuguesa.

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Mergulhamos uma vez mais pela depressão central do Rio Grande Sul. Íamos ao encontro de uma mulher que tinha uma história para contar, no contexto de um documentário sobre o trabalho infantil no Brasil. A estrada molhada apagava a visão cada vez mais distante dos contrafortes da serra do sudoeste. Logo entrávamos em uma derivação do caminho, indo por planícies ermas que pareciam um profundo Uruguai.

O asfalto virava farelo na estrada de chão vermelho. Em eras remotas da crosta da Terra, aquela região teria sido o limite de avanços e recuos dos oceanos, plasmando o pampa, abaixo, e acima os planaltos e serranias. Nós, viajantes do acaso, entrávamos sem querer naquele mundo sem volta, enquanto o ponteiro do diesel entrava na reserva.

Andamos. Chegamos enfim a um vilarejo. No centro daquele quase nada de casas e raros espectros humanos, cruzamos por um complexo fabril abandonado: era a fantasmagoria de um engenho de arroz, com prédios, silos, caminhão e até um posto de gasolina. Tudo quieto, no passado. Duvidando da realidade, seguimos por um caminho até cruzar pela estrada de ferro. Eis que o real ressurge na imagem da locomotiva, com um buzinaço na fuça do carro.

Passa o trem. Tateamos naquele abandono até encontrar a casa da nossa personagem, moradora da única residência íntegra de uma vila ferroviária decaída, tomada pelo macegal e por muitas caixas de abelhas depositadas pelos cômodos das velhas construções. A mulher nos conta a sua trágica sina: família jogada aqui a lá pelos ventos migrantes, entre as colônias do fumo e cidades da região metropolitana, em periferias violentas, onde perdera um filho de 15 anos de idade, eletrocutado, em trabalho precoce na construção civil; e outro menino, de 13 anos, atraído e depois assassinado pelo tráfico.

Deixamos a casa com suas tragédias e o zunido ameaçador das abelhas. Corações apertados, caminhamos pelos trilhos até uma estação vazia, ruínas sobre ruínas, pichadas com mil escritos de caos e violência. Naquelas paredes, a história de um Brasil abandonado, desgarrado império colonial.

 
 
 

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